24 de junho de 2016

Capítulo 11

Liga a televisão e começa a se arrumar, toda esbaforida. Está super atrasada pro trabalho! Dandara engole o café ao mesmo tempo em que calça os tênis. Que loucura, dormiu demais! O relógio despertou e ela nem ouviu! E pra variar, sua irmã ainda não chegou da farra...
__Dr. Menahen, uma palavra sobre a próxima luta... - diz o repórter na tv.
Ah, ele está na televisão! Menahen Uriah está na televisão. Dandara para de se vestir e presta atenção na tv. Já viu o maldito judeu outras vezes na televisão, nos jornais, internet... Mas agora, é diferente. É como se o visse como realmente é, de dentro pra fora...
__Só há espaço para um campeão: Tedy Urso. - a voz dele tem um tom sombrio, assustador...
__Mesmo Samuel não sendo o favorito, muitos acreditam na vitória dele. Como o senhor encara essa questão?
__O vencedor desta luta é o Tedy.
__Mas Samuel tem grandes chances de derrotá-lo.
__Grandes chances? Já vi que não entende nada de boxe. Não há a mínima possibilidade desse garoto ganhar essa luta.
__Não é o que estão dizendo por aí...! Alguns especialistas garantem que Samuel vence, apesar de Tedy ser o favorito. E até dizem que tem um estilo de lutar muito parecido com o seu...
__Ninguém tem o meu estilo. Nem mesmo ele.
O repórter abre a boca para falar mais alguma coisa, mas Menahen aperta o passo, empurrando os jornalistas que se acotovelam diante dele.
__O senhor gostaria de tê-lo em seu staff? - a pergunta surge do nada, uma voz fina e irritante...
Menahen para e procura com os olhos o imbecil que fez a pergunta. Lá no meio dos jornalistas, uma jovem franzina, de óculos, segurando um pequeno gravador, espera pela resposta dele.
__Não. Tenho os melhores pugilistas do país, alguns campeões mundiais... Não preciso de mais ninguém.
__Samuel está entre os melhores pugilistas do país. Muitos empresários gostariam de tê-lo em seu staff...
__Pois eu não quero. Que outros empresários façam bom proveito. - ele põe os óculos escuros - Aliás, eu não o considero tão bom assim para estar entre os melhores do país.
__Há quem diga que Samuel é o seu sucessor...
__Vou fingir que não fez este comentário infeliz. Até porquê, nenhum pugilista neste país pode ser comparado à mim. Eu sou único. Sou Menahen Uriah.
E dito assim, ele se afasta dos jornalistas caminhando apressado para o estacionamento. Enquanto liga o carro, ele vê um pequeno grupo de jornalistas de microfone em punho, tentando alcançar o homem magro de cabelos grisalhos. Ah, tinha que ser o maldito Lince!
__Desculpem, meus queridos, mas agora não posso conversar com vocês! Tenho uma reunião importantíssima com meus meninos! - diz Lince com um sorriso nos lábios, gesticulando loucamente ao mesmo tempo em que pula sobre a moto como um gato...
__O senhor acha que Samuel conseguirá vencer Tedy Urso?
__Eu espero que sim, meu querido! Mas isso só Deus sabe! Que vença o melhor! - ele acena para os jornalistas alegremente antes de dar partida na moto.
O celular toca tirando Menahen de seus pensamentos.
__Alô?
__Sou eu. Samuel. Podemos conversar?
__Conversar o quê? Nada disso, eu tenho coisas mais importantes pra fazer.
__Não tem nada a ver com a luta.
__Não tenho tempo pros seus fricotes, Samuel! Vou desligar.
__Espera, não...desliga.
Sim, como sempre, Menahen desligou o telefone na sua cara! Mas dessa vez ele vai ter que ouvir! Samuel joga o celular longe, irritado. Porquê é tão difícil conversar com Menahen?! Mas dessa vez ele vai ter de lhe dar atenção! As coisas não podem ser sempre como ele quer! Menahen manipula as pessoas, se impõe com ameaças e chantagens, não admite ser contrariado... É um ditador, sem dúvida! Só que com Samuel não funciona. Não mesmo! Ele não estremece a cada ordem de Menahen e tão pouco se apressa em agradá-lo como todo mundo faz! O poderoso Menahen Uriah, que dirige com mão de ferro as vidas de tantas pessoas, que humilha, constrange e exige...! O empresário mais bem sucedido do mundo esportivo, com poder suficiente tanto para alavancar a carreira de um atleta como para destruí-la totalmente...!
Temido, respeitado e principalmente odiado por muitos... Já foi um grande pugilista, campeão mundial três vezes, uma verdadeira fera nos ringues...! O grande Menahen Uriah, seu pai. Samuel não sabe se ser filho dele é bom ou ruim... Sabe que é muito difícil de lidar com ele, que desde sempre se desentenderam... Nunca tiveram uma relação de pai e filho. Quando era criança, talvez, um pouco. Mas logo que cresceu Menahen foi se revelando muito diferente do que fantasiava quando criança. Não era um herói, um "super pugilista" como imaginava... Era apenas um homem, frio, arrogante, autoritário e ambicioso.
Samuel veste a camisa, pega a chave do carro e sai. Como diz aquele ditado: se Maomé não vai à montanha, a montanha vai à Maomé!
É meio absurdo um filho pensar coisas tão ruins do próprio pai... Mas Menahen nunca se comportou exatamente como um pai. Ele sempre foi o grande pugilista e empresário bem sucedido, fora e dentro de casa. Quando criança e também já rapaz, seus amigos sentiam inveja por ele ser filho de Menahen... Mas Samuel também sentia inveja dos amigos por eles terem apenas um pai. Era só o que ele queria... Um pai, um amigo. Ele pensa essas coisas enquanto dirige, lembrando de sua infância solitária em internatos caríssimos, sua adolescência problemática em colégios na Europa... Discussões terríveis com Menahen, quase toda a sua vida!... As pessoas dizem que são muito parecidos. Sim, pai e filho se parecem. Mas só fisicamente. Aliás, Samuel não gosta disso também.
A semelhança física dá para levar, mas não gosta de ser comparado à Menahen. Por isso talvez ele use o sobrenome da mãe... Ser filho de Menahen Uriah é um estigma! Não por causa do sobrenome, pois é uma honra para Samuel ter o sobrenome Uriah, de seu querido avô Benjamin... Mas por causa da lama que Menahen jogou sobre a família, com seu orgulho, sua arrogância, sua frieza, sua maldade. Ah, não se trata da opinião de Samuel sobre Menahen!... É a opinião de todos que convivem ou conhecem Menahen. A diferença é que a maioria das pessoas fingem gostar dele, fingem concordar com ele... Mas Samuel não. Não aprova mais da metade das atitudes do pai, seja como empresário, como esportista ou como homem!
Samuel estaciona o carro em frente ao prédio da empresa. Olha para o moderníssimo prédio da Round Empresarial e suspira. Poucas vezes esteve aqui. Quando era criança, achava uma aventura, sentia-se um mini empresário, todo prosa! Adorava dizer: -- sou Samuel Uriah, filho de Menahen Uriah e neto de Benjamin Uriah!... Mas depois foi crescendo, entendendo a realidade da vida... Passou a evitar ir à Round.
No elevador, ele pensa em como começar a conversa com o pai. Conversar não é uma especialidade de Menahen! Sempre acaba em briga, em troca de ofensas...! Claro que Samuel também é um osso duro de roer, rebate e questiona cada frase que o pai diz... Mas ele espera que hoje a conversa seja diferente. Não vai ser fácil! Bem, fácil nunca é...
A sala de Menahen ocupa toda a cobertura, com acesso ao heliporto. Samuel dá um sorriso para a secretária.
__Ele está? - pergunta, já com a mão na maçaneta da porta.
__Sim, mas... Não quer ser incomodado... - Regina hesita, nervosa como sempre.
__Ele nunca quer, não é...? - Samuel sorri e abre a porta, deixando Regina de boca aberta.
__O que você quer? - Menahen é irritação pura...! - Estou ocupado!

Capítulo 12

Samuel fecha a porta e caminha devagar até a poltrona em frente à mesa de Menahen. Senta, cruza os braços e diz:
__O que foi aquilo com a mamãe anteontem?
__O quê? Está falando do quê?
__Você ameaçou minha mãe. Ameaçou internar minha mãe numa clínica psiquiátrica. Porquê?
__Eu não ameacei ninguém! Foi uma briga de casal, nada de mais! Aliás, isso não é da sua conta. É assunto meu e de Rebecca.
__Não quero que ameace, agrida, humilhe ou ofenda minha mãe. Se fizer qualquer uma dessas coisas, vou te denunciar à polícia.
Menahen dá uma gargalhada, coisa raríssima nele.
__Denunciar à polícia! Isso é uma piada, não é?! - de repente, fica muito sério - Ninguém neste país seria tão idiota assim! Eu sou Menahen Uriah.
__Sei muito bem quem você é. Por isso estou te avisando. É só um aviso, Menahen. Não ouse magoar minha mãe.
__Na minha vida você não se meta! - ele grita, esmurrando a mesa - Rebecca e eu sempre nos entendemos, são quarenta e tantos anos juntos, garoto! Você não sabe nada de casamento, vá cuidar da sua vida e deixe que da minha cuido eu! - Menahen levanta, quase num pulo, agarra Samuel pelo braço e vai arrastando-o até a porta - Fora daqui! Fora daqui!
Samuel se desvencilha dele, abrindo a porta. Encara o pai com fúria.
__Acha que tenho medo de você? Ah, você sabe muito bem que não... Mas você deveria ter medo, Menahen. Eu não estou brincando. Vou te botar na cadeia se tocar num fio de cabelo da minha mãe!
E dizendo isso, ele sai. Passa pela secretária como uma flecha e nem vê que a coitada está pálida e de olhos arregalados... Mais uma vez, acabou em briga! Não dá mesmo para conversar com Menahen! Samuel percebeu a inquietação da mãe quando foi vê-la ontem. Rebecca estava agitada, queria que ele fosse logo embora... Ela não disse nada, mas ele percebeu que alguma coisa tinha acontecido. E logo imaginou o motivo da inquietação da mãe... Uma das especialidades de Menahen: tortura psicológica! E sua vítima preferida era Rebecca. A passividade da mãe diante da tirania de Menahen incomoda Samuel. É revoltante, é triste, é muito cruel o que ele faz com a esposa...!
Samuel não está muito a fim de papo com Menahen, apesar da discussão que tiveram ainda a pouco. Mas quando se trata de Rebecca, a coisa muda de figura. Ele entra nos jardins da magnifica mansão da família Uriah torcendo para que sua mãe esteja em casa. Precisa conversar com ela, deixar claro que está ao seu lado, que vai defendê-la sempre... Rebecca é muito discreta, não fala o que está sentindo, não bota pra fora seus problemas, seus medos, suas angústias...! Viver com Menahen Uriah por mais de quarenta anos não é tarefa fácil! Como ela consegue suportar a arrogância e o egoísmo de Menahen?
Rebecca sorri ao vê-lo na sala e levanta com os braços abertos pra um abraço.
__Meu amor! Que surpresa boa! O quê tá fazendo aqui à essa hora, Sam? - ela diz, beijando o filho.
__Vamos conversar um pouquinho?
__Mas a gente conversou anteontem! Aconteceu alguma coisa, Samuel?
__É o que eu quero saber, mãe. O que foi que aconteceu que deixou o Mena tão irritado?
Rebecca sorri de novo, senta no sofá e respira fundo.
___Seu pai anda nervoso por conta da luta. E quando ele se irrita, acaba descontando em qualquer um! Sabe, essa luta está tirando seu pai do sério e...
__Pode parar, mãe! Pode parar com essa estorinha! Menahen nunca perde o controle por causa das lutas! Nunca perde o controle por causa de nada. Vocês estavam discutindo e não tinha nada a ver com luta de boxe!
__Por favor, Samuel! Chega disso! Sente aqui perto de mim, meu amor. Vamos falar de coisas boas... Da sua vida, por exemplo. Tá tranquilo pra luta?
Samuel senta ao lado dela e segura suas mãos.
__Se você não me contar, eu vou perguntar pra ele. Sabe que faço isso.
__Contar o quê?... Seu pai e eu de vez em quando brigamos, como todo casal! Foi uma discussão boba, sem importância, meu filho!
__Eu ouvi quando falaram na Beatriz.
Agora ela empalidece.
__Ah... Eu... Bem, eu fiz um comentário infeliz. Ele não gostou. Foi isso.
__Mentira. Fala a verdade, mãe. Eu ouvi vocês discutindo, o Menahen tava furioso...! E falavam da Beatriz.
Rebecca levanta, anda pela sala, passa as mãos nos cabelos... Está nervosa, claro. Se Menahen souber que disse uma palavra sequer, vai descarregar todo o seu ódio, toda a sua fúria sobre ela!...
__Eu não quero falar sobre isso, Samuel. É coisa minha e de seu pai. Fiz um comentário sobre a Beatriz, ele não gostou, ficou com raiva e... Bem, você sabe como ele fica quando desagradado...! Mas já tá tudo bem, querido. -ela sorri - A raiva já passou, ele voltou ao normal.
__Normal?!? Uma coisa que o Mena não é! Se não quer falar o que aconteceu, tudo bem. Vamos esquecer isso. Mas não quero que ele te magoe ou te machuque, mãe. Se eu souber de qualquer coisa assim, não vou ficar calado.
__Samuel...! - ela está chocada - Não fale assim! Não fale assim de seu pai, Sam!
__Essa coisa de pai... Isso não tem muito a ver com a gente, né...? Eu não gosto quando você fala desse jeito, mãe! Mas de qualquer maneira, já sabe que vou tomar uma atitude se acontecer outra cena como a de anteontem.
__Não quero que briguem, Samuel! Meu Deus, vocês são pai e filho! Precisam se entender, se amar como pai e filho!
__Isso nunca será possível. - Samuel levanta, abraça e beija a mãe - Eu preciso ir. Tenho que treinar pra luta.
__Seu pai também tá nervoso por causa dessa bendita luta!
Samuel sorri.
__Vou ganhar a luta.-ele dá uma piscadinha - Pra você.

Capítulo 12

Samuel fecha a porta e caminha devagar até a poltrona em frente à mesa de Menahen. Senta, cruza os braços e diz:
__O que foi aquilo com a mamãe anteontem?
__O quê? Está falando do quê?
__Você ameaçou minha mãe. Ameaçou internar minha mãe numa clínica psiquiátrica. Porquê?
__Eu não ameacei ninguém! Foi uma briga de casal, nada de mais! Aliás, isso não é da sua conta. É assunto meu e de Rebecca.
__Não quero que ameace, agrida, humilhe ou ofenda minha mãe. Se fizer qualquer uma dessas coisas, vou te denunciar à polícia.
Menahen dá uma gargalhada, coisa raríssima nele.
__Denunciar à polícia! Isso é uma piada, não é?! - de repente, fica muito sério - Ninguém neste país seria tão idiota assim! Eu sou Menahen Uriah.
__Sei muito bem quem você é. Por isso estou te avisando. É só um aviso, Menahen. Não ouse magoar minha mãe.
__Na minha vida você não se meta! - ele grita, esmurrando a mesa - Rebecca e eu sempre nos entendemos, são quarenta e tantos anos juntos, garoto! Você não sabe nada de casamento, vá cuidar da sua vida e deixe que da minha cuido eu! - Menahen levanta, quase num pulo, agarra Samuel pelo braço e vai arrastando-o até a porta - Fora daqui! Fora daqui!
Samuel se desvencilha dele, abrindo a porta. Encara o pai com fúria.
__Acha que tenho medo de você? Ah, você sabe muito bem que não... Mas você deveria ter medo, Menahen. Eu não estou brincando. Vou te botar na cadeia se tocar num fio de cabelo da minha mãe!
E dizendo isso, ele sai. Passa pela secretária como uma flecha e nem vê que a coitada está pálida e de olhos arregalados... Mais uma vez, acabou em briga! Não dá mesmo para conversar com Menahen! Samuel percebeu a inquietação da mãe quando foi vê-la ontem. Rebecca estava agitada, queria que ele fosse logo embora... Ela não disse nada, mas ele percebeu que alguma coisa tinha acontecido. E logo imaginou o motivo da inquietação da mãe... Uma das especialidades de Menahen: tortura psicológica! E sua vítima preferida era Rebecca. A passividade da mãe diante da tirania de Menahen incomoda Samuel. É revoltante, é triste, é muito cruel o que ele faz com a esposa...!
Samuel não está muito a fim de papo com Menahen, apesar da discussão que tiveram ainda a pouco. Mas quando se trata de Rebecca, a coisa muda de figura. Ele entra nos jardins da magnifica mansão da família Uriah torcendo para que sua mãe esteja em casa. Precisa conversar com ela, deixar claro que está ao seu lado, que vai defendê-la sempre... Rebecca é muito discreta, não fala o que está sentindo, não bota pra fora seus problemas, seus medos, suas angústias...! Viver com Menahen Uriah por mais de quarenta anos não é tarefa fácil! Como ela consegue suportar a arrogância e o egoísmo de Menahen?
Rebecca sorri ao vê-lo na sala e levanta com os braços abertos pra um abraço.
__Meu amor! Que surpresa boa! O quê tá fazendo aqui à essa hora, Sam? - ela diz, beijando o filho.
__Vamos conversar um pouquinho?
__Mas a gente conversou anteontem! Aconteceu alguma coisa, Samuel?
__É o que eu quero saber, mãe. O que foi que aconteceu que deixou o Mena tão irritado?
Rebecca sorri de novo, senta no sofá e respira fundo.
___Seu pai anda nervoso por conta da luta. E quando ele se irrita, acaba descontando em qualquer um! Sabe, essa luta está tirando seu pai do sério e...
__Pode parar, mãe! Pode parar com essa estorinha! Menahen nunca perde o controle por causa das lutas! Nunca perde o controle por causa de nada. Vocês estavam discutindo e não tinha nada a ver com luta de boxe!
__Por favor, Samuel! Chega disso! Sente aqui perto de mim, meu amor. Vamos falar de coisas boas... Da sua vida, por exemplo. Tá tranquilo pra luta?
Samuel senta ao lado dela e segura suas mãos.
__Se você não me contar, eu vou perguntar pra ele. Sabe que faço isso.
__Contar o quê?... Seu pai e eu de vez em quando brigamos, como todo casal! Foi uma discussão boba, sem importância, meu filho!
__Eu ouvi quando falaram na Beatriz.
Agora ela empalidece.
__Ah... Eu... Bem, eu fiz um comentário infeliz. Ele não gostou. Foi isso.
__Mentira. Fala a verdade, mãe. Eu ouvi vocês discutindo, o Menahen tava furioso...! E falavam da Beatriz.
Rebecca levanta, anda pela sala, passa as mãos nos cabelos... Está nervosa, claro. Se Menahen souber que disse uma palavra sequer, vai descarregar todo o seu ódio, toda a sua fúria sobre ela!...
__Eu não quero falar sobre isso, Samuel. É coisa minha e de seu pai. Fiz um comentário sobre a Beatriz, ele não gostou, ficou com raiva e... Bem, você sabe como ele fica quando desagradado...! Mas já tá tudo bem, querido. -ela sorri - A raiva já passou, ele voltou ao normal.
__Normal?!? Uma coisa que o Mena não é! Se não quer falar o que aconteceu, tudo bem. Vamos esquecer isso. Mas não quero que ele te magoe ou te machuque, mãe. Se eu souber de qualquer coisa assim, não vou ficar calado.
__Samuel...! - ela está chocada - Não fale assim! Não fale assim de seu pai, Sam!
__Essa coisa de pai... Isso não tem muito a ver com a gente, né...? Eu não gosto quando você fala desse jeito, mãe! Mas de qualquer maneira, já sabe que vou tomar uma atitude se acontecer outra cena como a de anteontem.
__Não quero que briguem, Samuel! Meu Deus, vocês são pai e filho! Precisam se entender, se amar como pai e filho!
__Isso nunca será possível. - Samuel levanta, abraça e beija a mãe - Eu preciso ir. Tenho que treinar pra luta.
__Seu pai também tá nervoso por causa dessa bendita luta!
Samuel sorri.
__Vou ganhar a luta.-ele dá uma piscadinha - Pra você.

Capítulo 11

Liga a televisão e começa a se arrumar, toda esbaforida. Está super atrasada pro trabalho! Dandara engole o café ao mesmo tempo em que calça os tênis. Que loucura, dormiu demais! O relógio despertou e ela nem ouviu! E pra variar, sua irmã ainda não chegou da farra...
__Dr. Menahen, uma palavra sobre a próxima luta... - diz o repórter na tv.
Ah, ele está na televisão! Menahen Uriah está na televisão. Dandara para de se vestir e presta atenção na tv. Já viu o maldito judeu outras vezes na televisão, nos jornais, internet... Mas agora, é diferente. É como se o visse como realmente é, de dentro pra fora...
__Só há espaço para um campeão: Tedy Urso. - a voz dele tem um tom sombrio, assustador...
__Mesmo Samuel não sendo o favorito, muitos acreditam na vitória dele. Como o senhor encara essa questão?
__O vencedor desta luta é o Tedy.
__Mas Samuel tem grandes chances de derrotá-lo.
__Grandes chances? Já vi que não entende nada de boxe. Não há a mínima possibilidade desse garoto ganhar essa luta.
__Não é o que estão dizendo por aí...! Alguns especialistas garantem que Samuel vence, apesar de Tedy ser o favorito. E até dizem que tem um estilo de lutar muito parecido com o seu...
__Ninguém tem o meu estilo. Nem mesmo ele.
O repórter abre a boca para falar mais alguma coisa, mas Menahen aperta o passo, empurrando os jornalistas que se acotovelam diante dele.
__O senhor gostaria de tê-lo em seu staff? - a pergunta surge do nada, uma voz fina e irritante...
Menahen para e procura com os olhos o imbecil que fez a pergunta. Lá no meio dos jornalistas, uma jovem franzina, de óculos, segurando um pequeno gravador, espera pela resposta dele.
__Não. Tenho os melhores pugilistas do país, alguns campeões mundiais... Não preciso de mais ninguém.
__Samuel está entre os melhores pugilistas do país. Muitos empresários gostariam de tê-lo em seu staff...
__Pois eu não quero. Que outros empresários façam bom proveito. - ele põe os óculos escuros - Aliás, eu não o considero tão bom assim para estar entre os melhores do país.
__Há quem diga que Samuel é o seu sucessor...
__Vou fingir que não fez este comentário infeliz. Até porquê, nenhum pugilista neste país pode ser comparado à mim. Eu sou único. Sou Menahen Uriah.
E dito assim, ele se afasta dos jornalistas caminhando apressado para o estacionamento. Enquanto liga o carro, ele vê um pequeno grupo de jornalistas de microfone em punho, tentando alcançar o homem magro de cabelos grisalhos. Ah, tinha que ser o maldito Lince!
__Desculpem, meus queridos, mas agora não posso conversar com vocês! Tenho uma reunião importantíssima com meus meninos! - diz Lince com um sorriso nos lábios, gesticulando loucamente ao mesmo tempo em que pula sobre a moto como um gato...
__O senhor acha que Samuel conseguirá vencer Tedy Urso?
__Eu espero que sim, meu querido! Mas isso só Deus sabe! Que vença o melhor! - ele acena para os jornalistas alegremente antes de dar partida na moto.
O celular toca tirando Menahen de seus pensamentos.
__Alô?
__Sou eu. Samuel. Podemos conversar?
__Conversar o quê? Nada disso, eu tenho coisas mais importantes pra fazer.
__Não tem nada a ver com a luta.
__Não tenho tempo pros seus fricotes, Samuel! Vou desligar.
__Espera, não...desliga.
Sim, como sempre, Menahen desligou o telefone na sua cara! Mas dessa vez ele vai ter que ouvir! Samuel joga o celular longe, irritado. Porquê é tão difícil conversar com Menahen?! Mas dessa vez ele vai ter de lhe dar atenção! As coisas não podem ser sempre como ele quer! Menahen manipula as pessoas, se impõe com ameaças e chantagens, não admite ser contrariado... É um ditador, sem dúvida! Só que com Samuel não funciona. Não mesmo! Ele não estremece a cada ordem de Menahen e tão pouco se apressa em agradá-lo como todo mundo faz! O poderoso Menahen Uriah, que dirige com mão de ferro as vidas de tantas pessoas, que humilha, constrange e exige...! O empresário mais bem sucedido do mundo esportivo, com poder suficiente tanto para alavancar a carreira de um atleta como para destruí-la totalmente...!
Temido, respeitado e principalmente odiado por muitos... Já foi um grande pugilista, campeão mundial três vezes, uma verdadeira fera nos ringues...! O grande Menahen Uriah, seu pai. Samuel não sabe se ser filho dele é bom ou ruim... Sabe que é muito difícil de lidar com ele, que desde sempre se desentenderam... Nunca tiveram uma relação de pai e filho. Quando era criança, talvez, um pouco. Mas logo que cresceu Menahen foi se revelando muito diferente do que fantasiava quando criança. Não era um herói, um "super pugilista" como imaginava... Era apenas um homem, frio, arrogante, autoritário e ambicioso.
Samuel veste a camisa, pega a chave do carro e sai. Como diz aquele ditado: se Maomé não vai à montanha, a montanha vai à Maomé!
É meio absurdo um filho pensar coisas tão ruins do próprio pai... Mas Menahen nunca se comportou exatamente como um pai. Ele sempre foi o grande pugilista e empresário bem sucedido, fora e dentro de casa. Quando criança e também já rapaz, seus amigos sentiam inveja por ele ser filho de Menahen... Mas Samuel também sentia inveja dos amigos por eles terem apenas um pai. Era só o que ele queria... Um pai, um amigo. Ele pensa essas coisas enquanto dirige, lembrando de sua infância solitária em internatos caríssimos, sua adolescência problemática em colégios na Europa... Discussões terríveis com Menahen, quase toda a sua vida!... As pessoas dizem que são muito parecidos. Sim, pai e filho se parecem. Mas só fisicamente. Aliás, Samuel não gosta disso também.
A semelhança física dá para levar, mas não gosta de ser comparado à Menahen. Por isso talvez ele use o sobrenome da mãe... Ser filho de Menahen Uriah é um estigma! Não por causa do sobrenome, pois é uma honra para Samuel ter o sobrenome Uriah, de seu querido avô Benjamin... Mas por causa da lama que Menahen jogou sobre a família, com seu orgulho, sua arrogância, sua frieza, sua maldade. Ah, não se trata da opinião de Samuel sobre Menahen!... É a opinião de todos que convivem ou conhecem Menahen. A diferença é que a maioria das pessoas fingem gostar dele, fingem concordar com ele... Mas Samuel não. Não aprova mais da metade das atitudes do pai, seja como empresário, como esportista ou como homem!
Samuel estaciona o carro em frente ao prédio da empresa. Olha para o moderníssimo prédio da Round Empresarial e suspira. Poucas vezes esteve aqui. Quando era criança, achava uma aventura, sentia-se um mini empresário, todo prosa! Adorava dizer: -- sou Samuel Uriah, filho de Menahen Uriah e neto de Benjamin Uriah!... Mas depois foi crescendo, entendendo a realidade da vida... Passou a evitar ir à Round.
No elevador, ele pensa em como começar a conversa com o pai. Conversar não é uma especialidade de Menahen! Sempre acaba em briga, em troca de ofensas...! Claro que Samuel também é um osso duro de roer, rebate e questiona cada frase que o pai diz... Mas ele espera que hoje a conversa seja diferente. Não vai ser fácil! Bem, fácil nunca é...
A sala de Menahen ocupa toda a cobertura, com acesso ao heliporto. Samuel dá um sorriso para a secretária.
__Ele está? - pergunta, já com a mão na maçaneta da porta.
__Sim, mas... Não quer ser incomodado... - Regina hesita, nervosa como sempre.
__Ele nunca quer, não é...? - Samuel sorri e abre a porta, deixando Regina de boca aberta.
__O que você quer? - Menahen é irritação pura...! - Estou ocupado!
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