24 de junho de 2016

Capítulo 11

Liga a televisão e começa a se arrumar, toda esbaforida. Está super atrasada pro trabalho! Dandara engole o café ao mesmo tempo em que calça os tênis. Que loucura, dormiu demais! O relógio despertou e ela nem ouviu! E pra variar, sua irmã ainda não chegou da farra...
__Dr. Menahen, uma palavra sobre a próxima luta... - diz o repórter na tv.
Ah, ele está na televisão! Menahen Uriah está na televisão. Dandara para de se vestir e presta atenção na tv. Já viu o maldito judeu outras vezes na televisão, nos jornais, internet... Mas agora, é diferente. É como se o visse como realmente é, de dentro pra fora...
__Só há espaço para um campeão: Tedy Urso. - a voz dele tem um tom sombrio, assustador...
__Mesmo Samuel não sendo o favorito, muitos acreditam na vitória dele. Como o senhor encara essa questão?
__O vencedor desta luta é o Tedy.
__Mas Samuel tem grandes chances de derrotá-lo.
__Grandes chances? Já vi que não entende nada de boxe. Não há a mínima possibilidade desse garoto ganhar essa luta.
__Não é o que estão dizendo por aí...! Alguns especialistas garantem que Samuel vence, apesar de Tedy ser o favorito. E até dizem que tem um estilo de lutar muito parecido com o seu...
__Ninguém tem o meu estilo. Nem mesmo ele.
O repórter abre a boca para falar mais alguma coisa, mas Menahen aperta o passo, empurrando os jornalistas que se acotovelam diante dele.
__O senhor gostaria de tê-lo em seu staff? - a pergunta surge do nada, uma voz fina e irritante...
Menahen para e procura com os olhos o imbecil que fez a pergunta. Lá no meio dos jornalistas, uma jovem franzina, de óculos, segurando um pequeno gravador, espera pela resposta dele.
__Não. Tenho os melhores pugilistas do país, alguns campeões mundiais... Não preciso de mais ninguém.
__Samuel está entre os melhores pugilistas do país. Muitos empresários gostariam de tê-lo em seu staff...
__Pois eu não quero. Que outros empresários façam bom proveito. - ele põe os óculos escuros - Aliás, eu não o considero tão bom assim para estar entre os melhores do país.
__Há quem diga que Samuel é o seu sucessor...
__Vou fingir que não fez este comentário infeliz. Até porquê, nenhum pugilista neste país pode ser comparado à mim. Eu sou único. Sou Menahen Uriah.
E dito assim, ele se afasta dos jornalistas caminhando apressado para o estacionamento. Enquanto liga o carro, ele vê um pequeno grupo de jornalistas de microfone em punho, tentando alcançar o homem magro de cabelos grisalhos. Ah, tinha que ser o maldito Lince!
__Desculpem, meus queridos, mas agora não posso conversar com vocês! Tenho uma reunião importantíssima com meus meninos! - diz Lince com um sorriso nos lábios, gesticulando loucamente ao mesmo tempo em que pula sobre a moto como um gato...
__O senhor acha que Samuel conseguirá vencer Tedy Urso?
__Eu espero que sim, meu querido! Mas isso só Deus sabe! Que vença o melhor! - ele acena para os jornalistas alegremente antes de dar partida na moto.
O celular toca tirando Menahen de seus pensamentos.
__Alô?
__Sou eu. Samuel. Podemos conversar?
__Conversar o quê? Nada disso, eu tenho coisas mais importantes pra fazer.
__Não tem nada a ver com a luta.
__Não tenho tempo pros seus fricotes, Samuel! Vou desligar.
__Espera, não...desliga.
Sim, como sempre, Menahen desligou o telefone na sua cara! Mas dessa vez ele vai ter que ouvir! Samuel joga o celular longe, irritado. Porquê é tão difícil conversar com Menahen?! Mas dessa vez ele vai ter de lhe dar atenção! As coisas não podem ser sempre como ele quer! Menahen manipula as pessoas, se impõe com ameaças e chantagens, não admite ser contrariado... É um ditador, sem dúvida! Só que com Samuel não funciona. Não mesmo! Ele não estremece a cada ordem de Menahen e tão pouco se apressa em agradá-lo como todo mundo faz! O poderoso Menahen Uriah, que dirige com mão de ferro as vidas de tantas pessoas, que humilha, constrange e exige...! O empresário mais bem sucedido do mundo esportivo, com poder suficiente tanto para alavancar a carreira de um atleta como para destruí-la totalmente...!
Temido, respeitado e principalmente odiado por muitos... Já foi um grande pugilista, campeão mundial três vezes, uma verdadeira fera nos ringues...! O grande Menahen Uriah, seu pai. Samuel não sabe se ser filho dele é bom ou ruim... Sabe que é muito difícil de lidar com ele, que desde sempre se desentenderam... Nunca tiveram uma relação de pai e filho. Quando era criança, talvez, um pouco. Mas logo que cresceu Menahen foi se revelando muito diferente do que fantasiava quando criança. Não era um herói, um "super pugilista" como imaginava... Era apenas um homem, frio, arrogante, autoritário e ambicioso.
Samuel veste a camisa, pega a chave do carro e sai. Como diz aquele ditado: se Maomé não vai à montanha, a montanha vai à Maomé!
É meio absurdo um filho pensar coisas tão ruins do próprio pai... Mas Menahen nunca se comportou exatamente como um pai. Ele sempre foi o grande pugilista e empresário bem sucedido, fora e dentro de casa. Quando criança e também já rapaz, seus amigos sentiam inveja por ele ser filho de Menahen... Mas Samuel também sentia inveja dos amigos por eles terem apenas um pai. Era só o que ele queria... Um pai, um amigo. Ele pensa essas coisas enquanto dirige, lembrando de sua infância solitária em internatos caríssimos, sua adolescência problemática em colégios na Europa... Discussões terríveis com Menahen, quase toda a sua vida!... As pessoas dizem que são muito parecidos. Sim, pai e filho se parecem. Mas só fisicamente. Aliás, Samuel não gosta disso também.
A semelhança física dá para levar, mas não gosta de ser comparado à Menahen. Por isso talvez ele use o sobrenome da mãe... Ser filho de Menahen Uriah é um estigma! Não por causa do sobrenome, pois é uma honra para Samuel ter o sobrenome Uriah, de seu querido avô Benjamin... Mas por causa da lama que Menahen jogou sobre a família, com seu orgulho, sua arrogância, sua frieza, sua maldade. Ah, não se trata da opinião de Samuel sobre Menahen!... É a opinião de todos que convivem ou conhecem Menahen. A diferença é que a maioria das pessoas fingem gostar dele, fingem concordar com ele... Mas Samuel não. Não aprova mais da metade das atitudes do pai, seja como empresário, como esportista ou como homem!
Samuel estaciona o carro em frente ao prédio da empresa. Olha para o moderníssimo prédio da Round Empresarial e suspira. Poucas vezes esteve aqui. Quando era criança, achava uma aventura, sentia-se um mini empresário, todo prosa! Adorava dizer: -- sou Samuel Uriah, filho de Menahen Uriah e neto de Benjamin Uriah!... Mas depois foi crescendo, entendendo a realidade da vida... Passou a evitar ir à Round.
No elevador, ele pensa em como começar a conversa com o pai. Conversar não é uma especialidade de Menahen! Sempre acaba em briga, em troca de ofensas...! Claro que Samuel também é um osso duro de roer, rebate e questiona cada frase que o pai diz... Mas ele espera que hoje a conversa seja diferente. Não vai ser fácil! Bem, fácil nunca é...
A sala de Menahen ocupa toda a cobertura, com acesso ao heliporto. Samuel dá um sorriso para a secretária.
__Ele está? - pergunta, já com a mão na maçaneta da porta.
__Sim, mas... Não quer ser incomodado... - Regina hesita, nervosa como sempre.
__Ele nunca quer, não é...? - Samuel sorri e abre a porta, deixando Regina de boca aberta.
__O que você quer? - Menahen é irritação pura...! - Estou ocupado!

Capítulo 12

Samuel fecha a porta e caminha devagar até a poltrona em frente à mesa de Menahen. Senta, cruza os braços e diz:
__O que foi aquilo com a mamãe anteontem?
__O quê? Está falando do quê?
__Você ameaçou minha mãe. Ameaçou internar minha mãe numa clínica psiquiátrica. Porquê?
__Eu não ameacei ninguém! Foi uma briga de casal, nada de mais! Aliás, isso não é da sua conta. É assunto meu e de Rebecca.
__Não quero que ameace, agrida, humilhe ou ofenda minha mãe. Se fizer qualquer uma dessas coisas, vou te denunciar à polícia.
Menahen dá uma gargalhada, coisa raríssima nele.
__Denunciar à polícia! Isso é uma piada, não é?! - de repente, fica muito sério - Ninguém neste país seria tão idiota assim! Eu sou Menahen Uriah.
__Sei muito bem quem você é. Por isso estou te avisando. É só um aviso, Menahen. Não ouse magoar minha mãe.
__Na minha vida você não se meta! - ele grita, esmurrando a mesa - Rebecca e eu sempre nos entendemos, são quarenta e tantos anos juntos, garoto! Você não sabe nada de casamento, vá cuidar da sua vida e deixe que da minha cuido eu! - Menahen levanta, quase num pulo, agarra Samuel pelo braço e vai arrastando-o até a porta - Fora daqui! Fora daqui!
Samuel se desvencilha dele, abrindo a porta. Encara o pai com fúria.
__Acha que tenho medo de você? Ah, você sabe muito bem que não... Mas você deveria ter medo, Menahen. Eu não estou brincando. Vou te botar na cadeia se tocar num fio de cabelo da minha mãe!
E dizendo isso, ele sai. Passa pela secretária como uma flecha e nem vê que a coitada está pálida e de olhos arregalados... Mais uma vez, acabou em briga! Não dá mesmo para conversar com Menahen! Samuel percebeu a inquietação da mãe quando foi vê-la ontem. Rebecca estava agitada, queria que ele fosse logo embora... Ela não disse nada, mas ele percebeu que alguma coisa tinha acontecido. E logo imaginou o motivo da inquietação da mãe... Uma das especialidades de Menahen: tortura psicológica! E sua vítima preferida era Rebecca. A passividade da mãe diante da tirania de Menahen incomoda Samuel. É revoltante, é triste, é muito cruel o que ele faz com a esposa...!
Samuel não está muito a fim de papo com Menahen, apesar da discussão que tiveram ainda a pouco. Mas quando se trata de Rebecca, a coisa muda de figura. Ele entra nos jardins da magnifica mansão da família Uriah torcendo para que sua mãe esteja em casa. Precisa conversar com ela, deixar claro que está ao seu lado, que vai defendê-la sempre... Rebecca é muito discreta, não fala o que está sentindo, não bota pra fora seus problemas, seus medos, suas angústias...! Viver com Menahen Uriah por mais de quarenta anos não é tarefa fácil! Como ela consegue suportar a arrogância e o egoísmo de Menahen?
Rebecca sorri ao vê-lo na sala e levanta com os braços abertos pra um abraço.
__Meu amor! Que surpresa boa! O quê tá fazendo aqui à essa hora, Sam? - ela diz, beijando o filho.
__Vamos conversar um pouquinho?
__Mas a gente conversou anteontem! Aconteceu alguma coisa, Samuel?
__É o que eu quero saber, mãe. O que foi que aconteceu que deixou o Mena tão irritado?
Rebecca sorri de novo, senta no sofá e respira fundo.
___Seu pai anda nervoso por conta da luta. E quando ele se irrita, acaba descontando em qualquer um! Sabe, essa luta está tirando seu pai do sério e...
__Pode parar, mãe! Pode parar com essa estorinha! Menahen nunca perde o controle por causa das lutas! Nunca perde o controle por causa de nada. Vocês estavam discutindo e não tinha nada a ver com luta de boxe!
__Por favor, Samuel! Chega disso! Sente aqui perto de mim, meu amor. Vamos falar de coisas boas... Da sua vida, por exemplo. Tá tranquilo pra luta?
Samuel senta ao lado dela e segura suas mãos.
__Se você não me contar, eu vou perguntar pra ele. Sabe que faço isso.
__Contar o quê?... Seu pai e eu de vez em quando brigamos, como todo casal! Foi uma discussão boba, sem importância, meu filho!
__Eu ouvi quando falaram na Beatriz.
Agora ela empalidece.
__Ah... Eu... Bem, eu fiz um comentário infeliz. Ele não gostou. Foi isso.
__Mentira. Fala a verdade, mãe. Eu ouvi vocês discutindo, o Menahen tava furioso...! E falavam da Beatriz.
Rebecca levanta, anda pela sala, passa as mãos nos cabelos... Está nervosa, claro. Se Menahen souber que disse uma palavra sequer, vai descarregar todo o seu ódio, toda a sua fúria sobre ela!...
__Eu não quero falar sobre isso, Samuel. É coisa minha e de seu pai. Fiz um comentário sobre a Beatriz, ele não gostou, ficou com raiva e... Bem, você sabe como ele fica quando desagradado...! Mas já tá tudo bem, querido. -ela sorri - A raiva já passou, ele voltou ao normal.
__Normal?!? Uma coisa que o Mena não é! Se não quer falar o que aconteceu, tudo bem. Vamos esquecer isso. Mas não quero que ele te magoe ou te machuque, mãe. Se eu souber de qualquer coisa assim, não vou ficar calado.
__Samuel...! - ela está chocada - Não fale assim! Não fale assim de seu pai, Sam!
__Essa coisa de pai... Isso não tem muito a ver com a gente, né...? Eu não gosto quando você fala desse jeito, mãe! Mas de qualquer maneira, já sabe que vou tomar uma atitude se acontecer outra cena como a de anteontem.
__Não quero que briguem, Samuel! Meu Deus, vocês são pai e filho! Precisam se entender, se amar como pai e filho!
__Isso nunca será possível. - Samuel levanta, abraça e beija a mãe - Eu preciso ir. Tenho que treinar pra luta.
__Seu pai também tá nervoso por causa dessa bendita luta!
Samuel sorri.
__Vou ganhar a luta.-ele dá uma piscadinha - Pra você.

Capítulo 12

Samuel fecha a porta e caminha devagar até a poltrona em frente à mesa de Menahen. Senta, cruza os braços e diz:
__O que foi aquilo com a mamãe anteontem?
__O quê? Está falando do quê?
__Você ameaçou minha mãe. Ameaçou internar minha mãe numa clínica psiquiátrica. Porquê?
__Eu não ameacei ninguém! Foi uma briga de casal, nada de mais! Aliás, isso não é da sua conta. É assunto meu e de Rebecca.
__Não quero que ameace, agrida, humilhe ou ofenda minha mãe. Se fizer qualquer uma dessas coisas, vou te denunciar à polícia.
Menahen dá uma gargalhada, coisa raríssima nele.
__Denunciar à polícia! Isso é uma piada, não é?! - de repente, fica muito sério - Ninguém neste país seria tão idiota assim! Eu sou Menahen Uriah.
__Sei muito bem quem você é. Por isso estou te avisando. É só um aviso, Menahen. Não ouse magoar minha mãe.
__Na minha vida você não se meta! - ele grita, esmurrando a mesa - Rebecca e eu sempre nos entendemos, são quarenta e tantos anos juntos, garoto! Você não sabe nada de casamento, vá cuidar da sua vida e deixe que da minha cuido eu! - Menahen levanta, quase num pulo, agarra Samuel pelo braço e vai arrastando-o até a porta - Fora daqui! Fora daqui!
Samuel se desvencilha dele, abrindo a porta. Encara o pai com fúria.
__Acha que tenho medo de você? Ah, você sabe muito bem que não... Mas você deveria ter medo, Menahen. Eu não estou brincando. Vou te botar na cadeia se tocar num fio de cabelo da minha mãe!
E dizendo isso, ele sai. Passa pela secretária como uma flecha e nem vê que a coitada está pálida e de olhos arregalados... Mais uma vez, acabou em briga! Não dá mesmo para conversar com Menahen! Samuel percebeu a inquietação da mãe quando foi vê-la ontem. Rebecca estava agitada, queria que ele fosse logo embora... Ela não disse nada, mas ele percebeu que alguma coisa tinha acontecido. E logo imaginou o motivo da inquietação da mãe... Uma das especialidades de Menahen: tortura psicológica! E sua vítima preferida era Rebecca. A passividade da mãe diante da tirania de Menahen incomoda Samuel. É revoltante, é triste, é muito cruel o que ele faz com a esposa...!
Samuel não está muito a fim de papo com Menahen, apesar da discussão que tiveram ainda a pouco. Mas quando se trata de Rebecca, a coisa muda de figura. Ele entra nos jardins da magnifica mansão da família Uriah torcendo para que sua mãe esteja em casa. Precisa conversar com ela, deixar claro que está ao seu lado, que vai defendê-la sempre... Rebecca é muito discreta, não fala o que está sentindo, não bota pra fora seus problemas, seus medos, suas angústias...! Viver com Menahen Uriah por mais de quarenta anos não é tarefa fácil! Como ela consegue suportar a arrogância e o egoísmo de Menahen?
Rebecca sorri ao vê-lo na sala e levanta com os braços abertos pra um abraço.
__Meu amor! Que surpresa boa! O quê tá fazendo aqui à essa hora, Sam? - ela diz, beijando o filho.
__Vamos conversar um pouquinho?
__Mas a gente conversou anteontem! Aconteceu alguma coisa, Samuel?
__É o que eu quero saber, mãe. O que foi que aconteceu que deixou o Mena tão irritado?
Rebecca sorri de novo, senta no sofá e respira fundo.
___Seu pai anda nervoso por conta da luta. E quando ele se irrita, acaba descontando em qualquer um! Sabe, essa luta está tirando seu pai do sério e...
__Pode parar, mãe! Pode parar com essa estorinha! Menahen nunca perde o controle por causa das lutas! Nunca perde o controle por causa de nada. Vocês estavam discutindo e não tinha nada a ver com luta de boxe!
__Por favor, Samuel! Chega disso! Sente aqui perto de mim, meu amor. Vamos falar de coisas boas... Da sua vida, por exemplo. Tá tranquilo pra luta?
Samuel senta ao lado dela e segura suas mãos.
__Se você não me contar, eu vou perguntar pra ele. Sabe que faço isso.
__Contar o quê?... Seu pai e eu de vez em quando brigamos, como todo casal! Foi uma discussão boba, sem importância, meu filho!
__Eu ouvi quando falaram na Beatriz.
Agora ela empalidece.
__Ah... Eu... Bem, eu fiz um comentário infeliz. Ele não gostou. Foi isso.
__Mentira. Fala a verdade, mãe. Eu ouvi vocês discutindo, o Menahen tava furioso...! E falavam da Beatriz.
Rebecca levanta, anda pela sala, passa as mãos nos cabelos... Está nervosa, claro. Se Menahen souber que disse uma palavra sequer, vai descarregar todo o seu ódio, toda a sua fúria sobre ela!...
__Eu não quero falar sobre isso, Samuel. É coisa minha e de seu pai. Fiz um comentário sobre a Beatriz, ele não gostou, ficou com raiva e... Bem, você sabe como ele fica quando desagradado...! Mas já tá tudo bem, querido. -ela sorri - A raiva já passou, ele voltou ao normal.
__Normal?!? Uma coisa que o Mena não é! Se não quer falar o que aconteceu, tudo bem. Vamos esquecer isso. Mas não quero que ele te magoe ou te machuque, mãe. Se eu souber de qualquer coisa assim, não vou ficar calado.
__Samuel...! - ela está chocada - Não fale assim! Não fale assim de seu pai, Sam!
__Essa coisa de pai... Isso não tem muito a ver com a gente, né...? Eu não gosto quando você fala desse jeito, mãe! Mas de qualquer maneira, já sabe que vou tomar uma atitude se acontecer outra cena como a de anteontem.
__Não quero que briguem, Samuel! Meu Deus, vocês são pai e filho! Precisam se entender, se amar como pai e filho!
__Isso nunca será possível. - Samuel levanta, abraça e beija a mãe - Eu preciso ir. Tenho que treinar pra luta.
__Seu pai também tá nervoso por causa dessa bendita luta!
Samuel sorri.
__Vou ganhar a luta.-ele dá uma piscadinha - Pra você.

Capítulo 11

Liga a televisão e começa a se arrumar, toda esbaforida. Está super atrasada pro trabalho! Dandara engole o café ao mesmo tempo em que calça os tênis. Que loucura, dormiu demais! O relógio despertou e ela nem ouviu! E pra variar, sua irmã ainda não chegou da farra...
__Dr. Menahen, uma palavra sobre a próxima luta... - diz o repórter na tv.
Ah, ele está na televisão! Menahen Uriah está na televisão. Dandara para de se vestir e presta atenção na tv. Já viu o maldito judeu outras vezes na televisão, nos jornais, internet... Mas agora, é diferente. É como se o visse como realmente é, de dentro pra fora...
__Só há espaço para um campeão: Tedy Urso. - a voz dele tem um tom sombrio, assustador...
__Mesmo Samuel não sendo o favorito, muitos acreditam na vitória dele. Como o senhor encara essa questão?
__O vencedor desta luta é o Tedy.
__Mas Samuel tem grandes chances de derrotá-lo.
__Grandes chances? Já vi que não entende nada de boxe. Não há a mínima possibilidade desse garoto ganhar essa luta.
__Não é o que estão dizendo por aí...! Alguns especialistas garantem que Samuel vence, apesar de Tedy ser o favorito. E até dizem que tem um estilo de lutar muito parecido com o seu...
__Ninguém tem o meu estilo. Nem mesmo ele.
O repórter abre a boca para falar mais alguma coisa, mas Menahen aperta o passo, empurrando os jornalistas que se acotovelam diante dele.
__O senhor gostaria de tê-lo em seu staff? - a pergunta surge do nada, uma voz fina e irritante...
Menahen para e procura com os olhos o imbecil que fez a pergunta. Lá no meio dos jornalistas, uma jovem franzina, de óculos, segurando um pequeno gravador, espera pela resposta dele.
__Não. Tenho os melhores pugilistas do país, alguns campeões mundiais... Não preciso de mais ninguém.
__Samuel está entre os melhores pugilistas do país. Muitos empresários gostariam de tê-lo em seu staff...
__Pois eu não quero. Que outros empresários façam bom proveito. - ele põe os óculos escuros - Aliás, eu não o considero tão bom assim para estar entre os melhores do país.
__Há quem diga que Samuel é o seu sucessor...
__Vou fingir que não fez este comentário infeliz. Até porquê, nenhum pugilista neste país pode ser comparado à mim. Eu sou único. Sou Menahen Uriah.
E dito assim, ele se afasta dos jornalistas caminhando apressado para o estacionamento. Enquanto liga o carro, ele vê um pequeno grupo de jornalistas de microfone em punho, tentando alcançar o homem magro de cabelos grisalhos. Ah, tinha que ser o maldito Lince!
__Desculpem, meus queridos, mas agora não posso conversar com vocês! Tenho uma reunião importantíssima com meus meninos! - diz Lince com um sorriso nos lábios, gesticulando loucamente ao mesmo tempo em que pula sobre a moto como um gato...
__O senhor acha que Samuel conseguirá vencer Tedy Urso?
__Eu espero que sim, meu querido! Mas isso só Deus sabe! Que vença o melhor! - ele acena para os jornalistas alegremente antes de dar partida na moto.
O celular toca tirando Menahen de seus pensamentos.
__Alô?
__Sou eu. Samuel. Podemos conversar?
__Conversar o quê? Nada disso, eu tenho coisas mais importantes pra fazer.
__Não tem nada a ver com a luta.
__Não tenho tempo pros seus fricotes, Samuel! Vou desligar.
__Espera, não...desliga.
Sim, como sempre, Menahen desligou o telefone na sua cara! Mas dessa vez ele vai ter que ouvir! Samuel joga o celular longe, irritado. Porquê é tão difícil conversar com Menahen?! Mas dessa vez ele vai ter de lhe dar atenção! As coisas não podem ser sempre como ele quer! Menahen manipula as pessoas, se impõe com ameaças e chantagens, não admite ser contrariado... É um ditador, sem dúvida! Só que com Samuel não funciona. Não mesmo! Ele não estremece a cada ordem de Menahen e tão pouco se apressa em agradá-lo como todo mundo faz! O poderoso Menahen Uriah, que dirige com mão de ferro as vidas de tantas pessoas, que humilha, constrange e exige...! O empresário mais bem sucedido do mundo esportivo, com poder suficiente tanto para alavancar a carreira de um atleta como para destruí-la totalmente...!
Temido, respeitado e principalmente odiado por muitos... Já foi um grande pugilista, campeão mundial três vezes, uma verdadeira fera nos ringues...! O grande Menahen Uriah, seu pai. Samuel não sabe se ser filho dele é bom ou ruim... Sabe que é muito difícil de lidar com ele, que desde sempre se desentenderam... Nunca tiveram uma relação de pai e filho. Quando era criança, talvez, um pouco. Mas logo que cresceu Menahen foi se revelando muito diferente do que fantasiava quando criança. Não era um herói, um "super pugilista" como imaginava... Era apenas um homem, frio, arrogante, autoritário e ambicioso.
Samuel veste a camisa, pega a chave do carro e sai. Como diz aquele ditado: se Maomé não vai à montanha, a montanha vai à Maomé!
É meio absurdo um filho pensar coisas tão ruins do próprio pai... Mas Menahen nunca se comportou exatamente como um pai. Ele sempre foi o grande pugilista e empresário bem sucedido, fora e dentro de casa. Quando criança e também já rapaz, seus amigos sentiam inveja por ele ser filho de Menahen... Mas Samuel também sentia inveja dos amigos por eles terem apenas um pai. Era só o que ele queria... Um pai, um amigo. Ele pensa essas coisas enquanto dirige, lembrando de sua infância solitária em internatos caríssimos, sua adolescência problemática em colégios na Europa... Discussões terríveis com Menahen, quase toda a sua vida!... As pessoas dizem que são muito parecidos. Sim, pai e filho se parecem. Mas só fisicamente. Aliás, Samuel não gosta disso também.
A semelhança física dá para levar, mas não gosta de ser comparado à Menahen. Por isso talvez ele use o sobrenome da mãe... Ser filho de Menahen Uriah é um estigma! Não por causa do sobrenome, pois é uma honra para Samuel ter o sobrenome Uriah, de seu querido avô Benjamin... Mas por causa da lama que Menahen jogou sobre a família, com seu orgulho, sua arrogância, sua frieza, sua maldade. Ah, não se trata da opinião de Samuel sobre Menahen!... É a opinião de todos que convivem ou conhecem Menahen. A diferença é que a maioria das pessoas fingem gostar dele, fingem concordar com ele... Mas Samuel não. Não aprova mais da metade das atitudes do pai, seja como empresário, como esportista ou como homem!
Samuel estaciona o carro em frente ao prédio da empresa. Olha para o moderníssimo prédio da Round Empresarial e suspira. Poucas vezes esteve aqui. Quando era criança, achava uma aventura, sentia-se um mini empresário, todo prosa! Adorava dizer: -- sou Samuel Uriah, filho de Menahen Uriah e neto de Benjamin Uriah!... Mas depois foi crescendo, entendendo a realidade da vida... Passou a evitar ir à Round.
No elevador, ele pensa em como começar a conversa com o pai. Conversar não é uma especialidade de Menahen! Sempre acaba em briga, em troca de ofensas...! Claro que Samuel também é um osso duro de roer, rebate e questiona cada frase que o pai diz... Mas ele espera que hoje a conversa seja diferente. Não vai ser fácil! Bem, fácil nunca é...
A sala de Menahen ocupa toda a cobertura, com acesso ao heliporto. Samuel dá um sorriso para a secretária.
__Ele está? - pergunta, já com a mão na maçaneta da porta.
__Sim, mas... Não quer ser incomodado... - Regina hesita, nervosa como sempre.
__Ele nunca quer, não é...? - Samuel sorri e abre a porta, deixando Regina de boca aberta.
__O que você quer? - Menahen é irritação pura...! - Estou ocupado!

10 de maio de 2016

Capítulo 10

Que desgraça... Quanta desgraça na vida dessa família! Quanta desgraça na vida dela... Porque querendo ou não, ela faz parte dessa estória horrível. Dandara nem sabe o que dizer. Está sem completamente sem chão!
__Que tipo de pessoa esse homem é...? - sua voz é um fio, seus sentimentos um turbilhão...
__Ele não é uma pessoa, Dandara! - fala Marisa, agora num tom furioso - Ele botou Deus e o mundo contra o teu pai! O maldito judeu é um monstro!
__Ele inventou essa barbaridade pra me separar da Beatriz. - declara Moacir - Inventou muitas outras coisas horríveis que nem vale a pena falar... O Lince também não gostava do Menahen. Mas nunca se expressava, nunca dava opinião, nem tomava partido de nada, sabe...? Ficava na dele, só observando... A gente mal se falava, não tinha amizade. Mas ele me defendeu no tribunal... Devo isso à ele.
__Você devia ter contado a verdade no teu julgamento, pai! As coisas horríveis que o Mena fez, caramba! E como é isso de " o filho pode ser de qualquer um "?!? O canalha disse isso e você não fez nada, pai?
__Eu quase caí na armadilha dele. Fiquei tão alucinado que... Cheguei mesmo a duvidar da Beatriz. Ela era uma moça rica, cheia de mimos, viajada, culta... E eu era só um índio grosseiro, pobre, ignorante...! Ela tinha lá as amizades, aquele pessoal da sociedade, sabe... - ele fecha os olhos meio que num transe - Não podia duvidar, não podia! Não podia duvidar da fidelidade dela... E eu duvidei. Por uns instantes, eu duvidei. Depois, aquela discussão com o Benjamin... Ele me chamando de safado, de golpista de aproveitador...! Ao mesmo tempo falava mal de Beatriz, chamava de vadia... Mas tudo isso foi coisa do Menahen. Ele planejou tudo muito bem planejado! - ele dá um suspiro e olha para Dandara - A Beatriz morreu por causa dele. Por minha causa também. Eu fui covarde, um imbecil que duvidou dela e por um triz não entrou na onda do Menahen... Ele ameaçou te matar também, minha filha! Então... Então fiquei calado, deixei as coisas acontecerem...
__A gente não gosta de falar desse assunto não, Dandara. Mas teu pai ficou guardando essas coisas como um segredo, não queria que você soubesse de nada...! Eu sempre disse que você precisava saber, precisava entender tudo o que aconteceu no passado.
__E o Lince? Onde ele entra nisso tudo? - a impressão que ela tem é estar ouvindo uma estória, como se fosse de outra pessoa...
__Não entra. Ele não se metia com nada, ficava na dele, treinando... Só observava tudo, como um gato... Mas ele viu quando o Mena começou a me provocar e depois me viu discutindo com a Beatriz... Aliás, foi isso que ele disse no depoimento. - Moacir parece ter uma ponta de ressentimento na voz... - Ele não tomou partido, não pendeu nem pra um lado nem pra outro... Não me defendeu, mas também não acusou o Mena.
__Caramba, gente! Isso tá parecendo filme, novela mexicana, sei lá! Você passou anos na prisão enquanto esse verme desfrutava a liberdade! E o que é pior: você pagou pelo crime que ele cometeu por livre e espontânea vontade! Você podia ter lutado, tentado provar sua inocência, sabendo que o verdadeiro culpado era o Menahen... Mas não fez nada. Apenas se deixou prender. - ela está muito indignada, muito arrasada com essa atitude do pai...!
__Eu precisava te proteger, filha! Aquele louco ameaçou várias vezes te fazer mal... Eu não podia correr o risco de te perder também.
__Ele não ia fazer nada, pai! Só tava te aterrorizando, te intimidando! Eram só ameaças vãs.
__Menahen Uriah não faz ameaças à toa. Se ele diz que vai fazer alguma coisa, ele faz mesmo.
Dandara respira fundo, cruza os braços e encara o pai.
__Então é isso... Você destruiu a sua vida pra salvar a minha. Sua carreira, sua moral, tudo jogado na lama... Vinte anos no presídio, por conta de uma... De uma omissão. Agora faz sentido essa sua depressão, essa tristeza... Agora faz sentido a amargura da mamãe... E o seu medo de que eu vá pro Rio!
__Não vou negar que tenho medo. Não quero que encontre o Menahen, não quero que tenha contato com aquele infeliz! Ele não sabe se tô vivo ou morto, se saí da prisão, não sabe mais nada da minha vida! E eu prefiro que seja assim.
Foi uma conversa difícil, dolorosa e reveladora. Mas também foi uma conversa libertadora. Agora Dandara sabe a verdade sobre o passado de seus pais e consequentemente sobre o seu passado. O mais irônico disso tudo é ela estar trabalhando para Lince Borges! Moacir e Marisa fugiram o quanto puderam do tal passado, tentaram evitar ao máximo o encontro da filha com esse maldito passado... Mas não deu. De vez em quando, Dandara pensava nessas coisas, no que aconteceu realmente antes dela nascer... Só que sem paranoia, sem obsessão... A verdade é que ela não se liga muito no passado não, prefere focar no presente, no que está acontecendo nesse momento.
Agora, essas revelações todas mexeram com ela sim! Nunca se interessou em saber nada de sua mãe biológica. Sua mãe é a Marisa e ponto final. Saber mesmo, só o básico: moça muito rica, bailarina, muito bonita, que morreu meses depois da filha nascer... O suficiente, não? Até ontem sim. Hoje são outros quinhentos. Dandara se trancou no quarto e ficou um longo tempo deitada, pensando em tudo o que ouviu dos pais. O que a deixou mais triste foi a covardia de Moacir. Covardia, não é exatamente a palavra... Moacir tinha medo que Menahen fizesse algum mal à ela, como fez à Beatriz. Ele agiu por amor, foi covarde para proteger a filha... Sim, Dandara bem que gostaria que seu pai tivesse enfrentado Menahen, colocado o infeliz atrás das grades, pagando por seus crimes... Mas quem garante que se tivesse feito isso, Menahen não cumpriria suas ameaças?... Talvez ela não estivesse viva pra contar a estória... De qualquer modo, as coisas aconteceram como tinham que acontecer.
Daqui pra frente, é outra estória. Aliás, a cabecinha de Dandara não para de pensar em como vai ser daqui pra diante. É, uma paulada dessas assim, de repente, não é fácil de aceitar... Ela tá curiosa, muito curiosa. E olha que ela não é assim, hein...! Quer saber mais, muito mais dessa estória! Mas como? Como descobrir mais sobre isso? Se é que há mais pra saber...

Capítulo 10

Que desgraça... Quanta desgraça na vida dessa família! Quanta desgraça na vida dela... Porque querendo ou não, ela faz parte dessa estória horrível. Dandara nem sabe o que dizer. Está sem completamente sem chão!
__Que tipo de pessoa esse homem é...? - sua voz é um fio, seus sentimentos um turbilhão...
__Ele não é uma pessoa, Dandara! - fala Marisa, agora num tom furioso - Ele botou Deus e o mundo contra o teu pai! O maldito judeu é um monstro!
__Ele inventou essa barbaridade pra me separar da Beatriz. - declara Moacir - Inventou muitas outras coisas horríveis que nem vale a pena falar... O Lince também não gostava do Menahen. Mas nunca se expressava, nunca dava opinião, nem tomava partido de nada, sabe...? Ficava na dele, só observando... A gente mal se falava, não tinha amizade. Mas ele me defendeu no tribunal... Devo isso à ele.
__Você devia ter contado a verdade no teu julgamento, pai! As coisas horríveis que o Mena fez, caramba! E como é isso de " o filho pode ser de qualquer um "?!? O canalha disse isso e você não fez nada, pai?
__Eu quase caí na armadilha dele. Fiquei tão alucinado que... Cheguei mesmo a duvidar da Beatriz. Ela era uma moça rica, cheia de mimos, viajada, culta... E eu era só um índio grosseiro, pobre, ignorante...! Ela tinha lá as amizades, aquele pessoal da sociedade, sabe... - ele fecha os olhos meio que num transe - Não podia duvidar, não podia! Não podia duvidar da fidelidade dela... E eu duvidei. Por uns instantes, eu duvidei. Depois, aquela discussão com o Benjamin... Ele me chamando de safado, de golpista de aproveitador...! Ao mesmo tempo falava mal de Beatriz, chamava de vadia... Mas tudo isso foi coisa do Menahen. Ele planejou tudo muito bem planejado! - ele dá um suspiro e olha para Dandara - A Beatriz morreu por causa dele. Por minha causa também. Eu fui covarde, um imbecil que duvidou dela e por um triz não entrou na onda do Menahen... Ele ameaçou te matar também, minha filha! Então... Então fiquei calado, deixei as coisas acontecerem...
__A gente não gosta de falar desse assunto não, Dandara. Mas teu pai ficou guardando essas coisas como um segredo, não queria que você soubesse de nada...! Eu sempre disse que você precisava saber, precisava entender tudo o que aconteceu no passado.
__E o Lince? Onde ele entra nisso tudo? - a impressão que ela tem é estar ouvindo uma estória, como se fosse de outra pessoa...
__Não entra. Ele não se metia com nada, ficava na dele, treinando... Só observava tudo, como um gato... Mas ele viu quando o Mena começou a me provocar e depois me viu discutindo com a Beatriz... Aliás, foi isso que ele disse no depoimento. - Moacir parece ter uma ponta de ressentimento na voz... - Ele não tomou partido, não pendeu nem pra um lado nem pra outro... Não me defendeu, mas também não acusou o Mena.
__Caramba, gente! Isso tá parecendo filme, novela mexicana, sei lá! Você passou anos na prisão enquanto esse verme desfrutava a liberdade! E o que é pior: você pagou pelo crime que ele cometeu por livre e espontânea vontade! Você podia ter lutado, tentado provar sua inocência, sabendo que o verdadeiro culpado era o Menahen... Mas não fez nada. Apenas se deixou prender. - ela está muito indignada, muito arrasada com essa atitude do pai...!
__Eu precisava te proteger, filha! Aquele louco ameaçou várias vezes te fazer mal... Eu não podia correr o risco de te perder também.
__Ele não ia fazer nada, pai! Só tava te aterrorizando, te intimidando! Eram só ameaças vãs.
__Menahen Uriah não faz ameaças à toa. Se ele diz que vai fazer alguma coisa, ele faz mesmo.
Dandara respira fundo, cruza os braços e encara o pai.
__Então é isso... Você destruiu a sua vida pra salvar a minha. Sua carreira, sua moral, tudo jogado na lama... Vinte anos no presídio, por conta de uma... De uma omissão. Agora faz sentido essa sua depressão, essa tristeza... Agora faz sentido a amargura da mamãe... E o seu medo de que eu vá pro Rio!
__Não vou negar que tenho medo. Não quero que encontre o Menahen, não quero que tenha contato com aquele infeliz! Ele não sabe se tô vivo ou morto, se saí da prisão, não sabe mais nada da minha vida! E eu prefiro que seja assim.
Foi uma conversa difícil, dolorosa e reveladora. Mas também foi uma conversa libertadora. Agora Dandara sabe a verdade sobre o passado de seus pais e consequentemente sobre o seu passado. O mais irônico disso tudo é ela estar trabalhando para Lince Borges! Moacir e Marisa fugiram o quanto puderam do tal passado, tentaram evitar ao máximo o encontro da filha com esse maldito passado... Mas não deu. De vez em quando, Dandara pensava nessas coisas, no que aconteceu realmente antes dela nascer... Só que sem paranoia, sem obsessão... A verdade é que ela não se liga muito no passado não, prefere focar no presente, no que está acontecendo nesse momento.
Agora, essas revelações todas mexeram com ela sim! Nunca se interessou em saber nada de sua mãe biológica. Sua mãe é a Marisa e ponto final. Saber mesmo, só o básico: moça muito rica, bailarina, muito bonita, que morreu meses depois da filha nascer... O suficiente, não? Até ontem sim. Hoje são outros quinhentos. Dandara se trancou no quarto e ficou um longo tempo deitada, pensando em tudo o que ouviu dos pais. O que a deixou mais triste foi a covardia de Moacir. Covardia, não é exatamente a palavra... Moacir tinha medo que Menahen fizesse algum mal à ela, como fez à Beatriz. Ele agiu por amor, foi covarde para proteger a filha... Sim, Dandara bem que gostaria que seu pai tivesse enfrentado Menahen, colocado o infeliz atrás das grades, pagando por seus crimes... Mas quem garante que se tivesse feito isso, Menahen não cumpriria suas ameaças?... Talvez ela não estivesse viva pra contar a estória... De qualquer modo, as coisas aconteceram como tinham que acontecer.
Daqui pra frente, é outra estória. Aliás, a cabecinha de Dandara não para de pensar em como vai ser daqui pra diante. É, uma paulada dessas assim, de repente, não é fácil de aceitar... Ela tá curiosa, muito curiosa. E olha que ela não é assim, hein...! Quer saber mais, muito mais dessa estória! Mas como? Como descobrir mais sobre isso? Se é que há mais pra saber...

9 de maio de 2016

Capítulo 9

Ninguém fala nada. Incrível, mas ninguém diz uma palavra por um bom tempo... Dandara fica olhando para os pais, esperando. Já esperou tanto tempo, pode esperar mais uns minutinhos... Então Moacir respira fundo, olha mais uma vez para Marisa. Ele é um homem com algum viço ainda, apesar dos problemas de saúde e dos sofrimentos por que passou na vida... Tem os olhos puxados, a pele morena, um cabelo ultra liso, herança da tribo krawa, onde nasceu... Dandara lembra de quando era criança, achava o pai lindo, elegante, forte... Como um cacique krawa! Ela sempre admirou o pai, mesmo sabendo das coisas terríveis que aconteceram com ele...
__Isso começou muito antes de você nascer, minha filha. - ele finalmente começa a falar - Há mais de quarenta anos... A gente era jovem, tava começando no boxe... Eu e o Menahen Uriah. A diferença era que eu era um mísero faxineiro e ele filho de um pugilista famoso e rico. Eu conheci a Beatriz, me apaixonei por ela e ela por mim... Mas eu não sabia que ela era enteada do Benjamin. Não no começo, ela não falou nada... Então, o Mena começou a implicar comigo, fazia armação pro treinador, queria me tirar dos treinos... Ele tinha inveja e ciúme porque o Benjamin me incentivava, sabia do meu talento... E não fazia isso com o filho. Pelo contrário, exigia demais do Menahen, criticava, cobrava... - Ele faz uma pausa e olha firme para Marisa - O Mena era diabólico! Tinha ciúme do pai, tinha ciúme da Beatriz...! Quando ele começou a se fazer de bonzinho, dando força pro nosso namoro, eu quase acreditei na amizade dele. Dizia que tava do nosso lado, que ia ajudar quando a gente contasse pro Benjamin e pra Inês... Era tudo mentira, tudo armação! Ele mesmo contou tudo pro pai. Disse que eu só queria o dinheiro dele, que tava querendo dar um golpe... Inventou um monte de coisa, que infelizmente o Benjamin acreditou em tudo...
__Mas o pior foi quando ele falou que a sua mãe tinha dado em cima dele. - diz Marisa, de repente - Que ela tentou agarrar ele, veja só...! Queria que o pai e a madrasta pensassem que a Beatriz era uma vagabunda!
__Queria que eu pensasse isso. - reforça Moacir - E ele quase me convenceu. O Menahen era imprevisível, tanto no boxe como na vida...! Ele fez tantas insinuações, falou tanta coisa horrível... Que por pouco eu não caí na armadilha... Eu discuti feio com o Benjamin, foi uma briga daquelas! Ele me acusando de golpista, ao mesmo tempo em que falava mal da Beatriz... O Mena conseguiu envenenar a cabeça do pai contra a Beatriz e contra mim também. Que ele era mau, eu já sabia. Só não entendia porquê...
__Fala logo, Moacir! Para de fazer rodeio e fala logo pra ela! - Marisa quase grita, com aquele seu jeito ríspido de ser...
__Calma, mulher...! Isso não é coisa que se diga assim, do nada... É muito difícil falar disso tantos anos depois... Eu passei por muita humilhação por causa do Mena.
__Eu sei, pai. Você foi pra cadeia acusado injustamente de ter matado a Beatriz. Foi o Menahen quem te mandou pra cadeia, eu sei disso também. Foi um acidente, você não matou a Beatriz. Sempre acreditei na sua inocência, pai.
__É verdade, eu não matei sua mãe. O Menahen matou. - a voz de Moacir é grave, profunda...
Dandara arregala os olhos, paralisada. Caramba, como é isso!? Porque Moacir não disse isso antes? Porque não falou isso quando foi preso...? Que loucura...!
__Você não falou nada disso quando foi preso, pai! - ela está mais revoltada do que chocada... - Porquê não disse pra polícia isso, pai? Que tava desconfiado do Menahen e...
__Eu não podia dizer nada porque o infeliz ameaçou fazer te fazer mal. E eu não tava desconfiado, tinha certeza. Menahen armou tudo, desde o começo... Eu tive que ficar calado, filha. Tinha medo que aquele animal fizesse alguma maldade com você!
__Pai, você foi preso injustamente, passou anos pagando por um crime que não cometeu...! E de quebra livrou a cara do Menahen! - Dandara levanta e anda de um lado para o outro, indignada, arrasada - Era ele quem deveria estar na cadeia! Você destruiu a sua vida, pai!
__Você não conhece o Menahen. Não sabe do que ele é capaz...!
__Ele abusou da Beatriz. - Marisa despeja, com a voz carregada de ódio, tristeza, mágoa e tantos outros sentimentos que não ficam muito claros nesse momento...
__Abusou como? - que pergunta idiota...!
__O que você acha? Ele abusou da Beatriz...  E não foi só uma vez... E depois inventou umas coisas horríveis!
__Que tipo de coisas...? - agora sim ela está chocada...
__Que o filho que ela tava esperando podia ser de qualquer um. Até dele. - Marisa dá um sorrisinho estranho ao dizer isso, totalmente fora de propósito...
Dandara sente as pernas fraquejarem. Que loucura é essa, meu Deus?... Parece um pesadelo!

Capítulo 9

Ninguém fala nada. Incrível, mas ninguém diz uma palavra por um bom tempo... Dandara fica olhando para os pais, esperando. Já esperou tanto tempo, pode esperar mais uns minutinhos... Então Moacir respira fundo, olha mais uma vez para Marisa. Ele é um homem com algum viço ainda, apesar dos problemas de saúde e dos sofrimentos por que passou na vida... Tem os olhos puxados, a pele morena, um cabelo ultra liso, herança da tribo krawa, onde nasceu... Dandara lembra de quando era criança, achava o pai lindo, elegante, forte... Como um cacique krawa! Ela sempre admirou o pai, mesmo sabendo das coisas terríveis que aconteceram com ele...
__Isso começou muito antes de você nascer, minha filha. - ele finalmente começa a falar - Há mais de quarenta anos... A gente era jovem, tava começando no boxe... Eu e o Menahen Uriah. A diferença era que eu era um mísero faxineiro e ele filho de um pugilista famoso e rico. Eu conheci a Beatriz, me apaixonei por ela e ela por mim... Mas eu não sabia que ela era enteada do Benjamin. Não no começo, ela não falou nada... Então, o Mena começou a implicar comigo, fazia armação pro treinador, queria me tirar dos treinos... Ele tinha inveja e ciúme porque o Benjamin me incentivava, sabia do meu talento... E não fazia isso com o filho. Pelo contrário, exigia demais do Menahen, criticava, cobrava... - Ele faz uma pausa e olha firme para Marisa - O Mena era diabólico! Tinha ciúme do pai, tinha ciúme da Beatriz...! Quando ele começou a se fazer de bonzinho, dando força pro nosso namoro, eu quase acreditei na amizade dele. Dizia que tava do nosso lado, que ia ajudar quando a gente contasse pro Benjamin e pra Inês... Era tudo mentira, tudo armação! Ele mesmo contou tudo pro pai. Disse que eu só queria o dinheiro dele, que tava querendo dar um golpe... Inventou um monte de coisa, que infelizmente o Benjamin acreditou em tudo...
__Mas o pior foi quando ele falou que a sua mãe tinha dado em cima dele. - diz Marisa, de repente - Que ela tentou agarrar ele, veja só...! Queria que o pai e a madrasta pensassem que a Beatriz era uma vagabunda!
__Queria que eu pensasse isso. - reforça Moacir - E ele quase me convenceu. O Menahen era imprevisível, tanto no boxe como na vida...! Ele fez tantas insinuações, falou tanta coisa horrível... Que por pouco eu não caí na armadilha... Eu discuti feio com o Benjamin, foi uma briga daquelas! Ele me acusando de golpista, ao mesmo tempo em que falava mal da Beatriz... O Mena conseguiu envenenar a cabeça do pai contra a Beatriz e contra mim também. Que ele era mau, eu já sabia. Só não entendia porquê...
__Fala logo, Moacir! Para de fazer rodeio e fala logo pra ela! - Marisa quase grita, com aquele seu jeito ríspido de ser...
__Calma, mulher...! Isso não é coisa que se diga assim, do nada... É muito difícil falar disso tantos anos depois... Eu passei por muita humilhação por causa do Mena.
__Eu sei, pai. Você foi pra cadeia acusado injustamente de ter matado a Beatriz. Foi o Menahen quem te mandou pra cadeia, eu sei disso também. Foi um acidente, você não matou a Beatriz. Sempre acreditei na sua inocência, pai.
__É verdade, eu não matei sua mãe. O Menahen matou. - a voz de Moacir é grave, profunda...
Dandara arregala os olhos, paralisada. Caramba, como é isso!? Porque Moacir não disse isso antes? Porque não falou isso quando foi preso...? Que loucura...!
__Você não falou nada disso quando foi preso, pai! - ela está mais revoltada do que chocada... - Porquê não disse pra polícia isso, pai? Que tava desconfiado do Menahen e...
__Eu não podia dizer nada porque o infeliz ameaçou fazer te fazer mal. E eu não tava desconfiado, tinha certeza. Menahen armou tudo, desde o começo... Eu tive que ficar calado, filha. Tinha medo que aquele animal fizesse alguma maldade com você!
__Pai, você foi preso injustamente, passou anos pagando por um crime que não cometeu...! E de quebra livrou a cara do Menahen! - Dandara levanta e anda de um lado para o outro, indignada, arrasada - Era ele quem deveria estar na cadeia! Você destruiu a sua vida, pai!
__Você não conhece o Menahen. Não sabe do que ele é capaz...!
__Ele abusou da Beatriz. - Marisa despeja, com a voz carregada de ódio, tristeza, mágoa e tantos outros sentimentos que não ficam muito claros nesse momento...
__Abusou como? - que pergunta idiota...!
__O que você acha? Ele abusou da Beatriz...  E não foi só uma vez... E depois inventou umas coisas horríveis!
__Que tipo de coisas...? - agora sim ela está chocada...
__Que o filho que ela tava esperando podia ser de qualquer um. Até dele. - Marisa dá um sorrisinho estranho ao dizer isso, totalmente fora de propósito...
Dandara sente as pernas fraquejarem. Que loucura é essa, meu Deus?... Parece um pesadelo!

8 de maio de 2016

capitulo 8

Que situação. Ela está frente a frente com seus pais, prestes a desvendar os mistérios do passado deles… Desde criança, Dandara se deparou com esse segredo terrível, que cerca sua vida. Nunca ligou pra isso, nunca se interessou pelo que aconteceu, nunca quis saber nada! Mas agora, talvez seja a hora de encerrar essa estória. Ou de iniciar outra…
Porque ela está nesse rolo? Tem a ver com sua mãe biológica. Mas Dandara não sabe ao certo o que de fato aconteceu. Vai saber agora.

__O que acontece, filha, é que nem eu nem sua mãe queremos tocar nessa estória. A gente sofreu muito por causa disso tudo com o Uriah… E ainda sofre só de lembrar…! A gente não quer te envolver nisso, nessa estória que é nossa. Essa cruz é nossa, Dandara.

__Tudo bem, eu entendo. Mas tenho o direito de saber o que aconteceu de verdade! Eu sei que você foi preso, que passou um sufoco na prisão, que por causa disso sua carreira no boxe foi destruída… E que a culpa foi toda do Uriah. Mas eu nem era nascida quando tudo isso aconteceu! Sim, eu quero saber o que aconteceu. Podem começar a falar. Sou toda ouvidos.

Moacir respira fundo e olha para Marisa. Depois esfrega as mãos e volta a encarar Dandara.

__Bem... Você nem era nascida... Mas isso não é uma coisa fácil de dizer, filha. Sua mãe... A Beatriz, morreu não por causa do Mena. Mas por minha causa. Se a gente não tivesse se conhecido, talvez nada disso teria acontecido. Quem sabe eu não mereci mesmo ir pra cadeia?... 

__Não, pai! Não diz essa bobagem!

__Você não quer saber o que aconteceu? Então não fala nada, só ouve. - ele respira de novo - O Mena me odiava. Tinha inveja, eu acho... O pai dele sabia que eu tinha talento, queria investir em mim. O Mena não gostou nada quando soube! E gostou menos ainda quando soube de mim e da Beatriz... Ficou furioso, tentou nos separar inventando um monte de mentiras... 

__Ele era um monstro. - diz Marisa de repente - Um maluco de carteirinha! Quase matou seu pai duas vezes! E acabou matando a Beatriz.

__Por favor, Marisa! Me deixa falar! A verdade é que eu fui condenado injustamente... E mesmo tantos anos depois, eu não tive como me reerguer no boxe. Ele é o criminoso nessa estória, não eu! 

__Eu sei disso, pai. Sei que é inocente. Mas não é só isso, né? O Mena não te acusou só porque tinha inveja de você, não é...? Tem mais coisa nessa estória, não tem?

capitulo 8

Que situação. Ela está frente a frente com seus pais, prestes a desvendar os mistérios do passado deles… Desde criança, Dandara se deparou com esse segredo terrível, que cerca sua vida. Nunca ligou pra isso, nunca se interessou pelo que aconteceu, nunca quis saber nada! Mas agora, talvez seja a hora de encerrar essa estória. Ou de iniciar outra…
Porque ela está nesse rolo? Tem a ver com sua mãe biológica. Mas Dandara não sabe ao certo o que de fato aconteceu. Vai saber agora.

__O que acontece, filha, é que nem eu nem sua mãe queremos tocar nessa estória. A gente sofreu muito por causa disso tudo com o Uriah… E ainda sofre só de lembrar…! A gente não quer te envolver nisso, nessa estória que é nossa. Essa cruz é nossa, Dandara.

__Tudo bem, eu entendo. Mas tenho o direito de saber o que aconteceu de verdade! Eu sei que você foi preso, que passou um sufoco na prisão, que por causa disso sua carreira no boxe foi destruída… E que a culpa foi toda do Uriah. Mas eu nem era nascida quando tudo isso aconteceu! Sim, eu quero saber o que aconteceu. Podem começar a falar. Sou toda ouvidos.

Moacir respira fundo e olha para Marisa. Depois esfrega as mãos e volta a encarar Dandara.

__Bem... Você nem era nascida... Mas isso não é uma coisa fácil de dizer, filha. Sua mãe... A Beatriz, morreu não por causa do Mena. Mas por minha causa. Se a gente não tivesse se conhecido, talvez nada disso teria acontecido. Quem sabe eu não mereci mesmo ir pra cadeia?... 

__Não, pai! Não diz essa bobagem!

__Você não quer saber o que aconteceu? Então não fala nada, só ouve. - ele respira de novo - O Mena me odiava. Tinha inveja, eu acho... O pai dele sabia que eu tinha talento, queria investir em mim. O Mena não gostou nada quando soube! E gostou menos ainda quando soube de mim e da Beatriz... Ficou furioso, tentou nos separar inventando um monte de mentiras... 

__Ele era um monstro. - diz Marisa de repente - Um maluco de carteirinha! Quase matou seu pai duas vezes! E acabou matando a Beatriz.

__Por favor, Marisa! Me deixa falar! A verdade é que eu fui condenado injustamente... E mesmo tantos anos depois, eu não tive como me reerguer no boxe. Ele é o criminoso nessa estória, não eu! 

__Eu sei disso, pai. Sei que é inocente. Mas não é só isso, né? O Mena não te acusou só porque tinha inveja de você, não é...? Tem mais coisa nessa estória, não tem?

7 de maio de 2016

Capítulo 7

Ah, o fim de semana...! Graças à Deus, ele chegou! E hoje, sábado, Dandara só quer ficar na cama e dormir, dormir, dormir... Trabalhar é bom, mas cansa, né...! Mas uma pergunta ainda está martelando na cabeça dela... Seu pai conheceu mesmo Lince Borges? Talvez sim, talvez não. Só Moacir pode dizer. Ah, aí é que mora o perigo...!  Seu pai não gosta de falar sobre o passado...
__Pai, você conheceu o Lince Borges?_ela pergunta chegando na varanda.
__Conheci.
__Ele era legal?
__Porque quer saber?-ele levanta da cadeira e anda de um lado para o outro da varanda.
__Ele é o dono da loja onde eu trabalho...
__Também sabia disso.-ele para na frente dela- Quer saber o quê, Dandara?
__Ele era legal, vocês se davam bem?
Moacir respira fundo e faz uma careta que ela não consegue definir o que é...
__A gente se conhecia de treino, se falava de vez em quando... Não tenho nada contra ele não. Mas porque tá perguntando isso?
__Nunca brigaram, nada...?
__Não, a gente mal se falava! Ele era muito falante, sorridente... Mas eu nunca tive amizade com ele.-nem o tom de voz dele dá pra saber o que se passa na sua cabeça...!
__Não gostava dele?
__Mas o que diabos é isso, Dandara?!? Interrogatório já de manhã?! -sim, ele está irritado! - Que conversa mais arrevesada é essa! Tá querendo saber o quê, criatura?!
__Se vocês se conheceram mesmo, ora! Eu conheci na loja.
O rosto de Moacir endurece, daquele jeito que Dandara não vê há muito tempo...
__Conheceu o Lince? Falou com ele?
__Sim, falei com ele.
__Falou de mim pra ele?
__Claro que não, pai! Ele é o patrão, o dono! E eu sou a funcionária!
__Mas porque tá fazendo esse inquérito todo comigo então?
__Sei lá... A mãe disse que você e o Lince brigaram uma vez... - ela se encolhe e vai sentar na escadinha da varanda - Isso é verdade?
__Tinha que ser coisa da Marisa! Que mania ela tem de se meter onde não é chamada! Além de intrometida é mentirosa! Nunca briguei com aquele sujeito! A gente só se falava nos treinos. E eu não quero falar dessas coisas. -levanta e entra, fechando a porta na cara dela.
Uau! Que reação foi aquela?! Ele ficou com raiva, chocado ou triste...? Dandara não entendeu nada! Aliás, está ainda mais intrigada com isso tudo... Ah, mas ela vai descobrir, ora se vai! Dandara levanta, decidida. Vai tirar isso a limpo agora mesmo!
Moacir está no quartinho dos fundos, cuidando de seus passarinhos. E Marisa no quintal estendendo roupa no varal. Dandara passa por Marisa, que já sentiu a situação...
__Sei que não gosta de falar do passado... Mas eu tô com algumas coisas entaladas na garganta faz tempo! Eu sei que o Uriah te prejudicou, destruiu a tua vida... E por causa dele, você foi preso, sofreu muito na prisão... - faz uma pausa, pra ver a reação do pai - Mas eu preciso entender o que aconteceu. Vocês nunca falaram desse assunto, nunca sentaram e conversaram comigo sobre o que aconteceu... Eu tenho o direito de saber, pai! - a expressão do rosto de Moacir continua impassível... - Não acho justo vocês fazerem esse mistério todo, escondendo não sei o quê de mim! Acha isso certo, pai? Acha certo, mãe? Não se pode nem pronunciar o nome do Uriah, que você vira bicho! Meu Deus, quanto tempo se passou?... Quantos anos? Trinta, quarenta anos...? Eu tô com quase quarenta e nunca soube de verdade o que aconteceu! Mas tenho esse direito, não é? É o teu passado, mas eu tô incluída nesse pacote, lembra?! Você ficou danado quando eu falei do Lince...! Não quer falar do passado, mas fica o tempo todo assistindo o noticiário, lendo no jornal, até na internet... Fica se torturando com a vida do maldito Uriah, querendo saber tudo sobre ele! Só não quer conversar comigo. Que não falem com a Yara e o Rudi, eu entendo. Eles não têm nada a ver com isso. Mas eu tenho. Então vamos sentar, os três, e conversar. Agora.
Moacir olha para Marisa que à essa altura já parou de estender roupa e está encostada na parede, os olhos arregalados...
__Tá certo. Você tá certa, filha. A gente te deve isso. Marisa, senta aqui. A conversa vai ser longa. - ele puxa um banquinho e Marisa senta.
Dandara senta também. Como ele disse, a conversa vai ser longa...

Capítulo 7

Ah, o fim de semana...! Graças à Deus, ele chegou! E hoje, sábado, Dandara só quer ficar na cama e dormir, dormir, dormir... Trabalhar é bom, mas cansa, né...! Mas uma pergunta ainda está martelando na cabeça dela... Seu pai conheceu mesmo Lince Borges? Talvez sim, talvez não. Só Moacir pode dizer. Ah, aí é que mora o perigo...!  Seu pai não gosta de falar sobre o passado...
__Pai, você conheceu o Lince Borges?_ela pergunta chegando na varanda.
__Conheci.
__Ele era legal?
__Porque quer saber?-ele levanta da cadeira e anda de um lado para o outro da varanda.
__Ele é o dono da loja onde eu trabalho...
__Também sabia disso.-ele para na frente dela- Quer saber o quê, Dandara?
__Ele era legal, vocês se davam bem?
Moacir respira fundo e faz uma careta que ela não consegue definir o que é...
__A gente se conhecia de treino, se falava de vez em quando... Não tenho nada contra ele não. Mas porque tá perguntando isso?
__Nunca brigaram, nada...?
__Não, a gente mal se falava! Ele era muito falante, sorridente... Mas eu nunca tive amizade com ele.-nem o tom de voz dele dá pra saber o que se passa na sua cabeça...!
__Não gostava dele?
__Mas o que diabos é isso, Dandara?!? Interrogatório já de manhã?! -sim, ele está irritado! - Que conversa mais arrevesada é essa! Tá querendo saber o quê, criatura?!
__Se vocês se conheceram mesmo, ora! Eu conheci na loja.
O rosto de Moacir endurece, daquele jeito que Dandara não vê há muito tempo...
__Conheceu o Lince? Falou com ele?
__Sim, falei com ele.
__Falou de mim pra ele?
__Claro que não, pai! Ele é o patrão, o dono! E eu sou a funcionária!
__Mas porque tá fazendo esse inquérito todo comigo então?
__Sei lá... A mãe disse que você e o Lince brigaram uma vez... - ela se encolhe e vai sentar na escadinha da varanda - Isso é verdade?
__Tinha que ser coisa da Marisa! Que mania ela tem de se meter onde não é chamada! Além de intrometida é mentirosa! Nunca briguei com aquele sujeito! A gente só se falava nos treinos. E eu não quero falar dessas coisas. -levanta e entra, fechando a porta na cara dela.
Uau! Que reação foi aquela?! Ele ficou com raiva, chocado ou triste...? Dandara não entendeu nada! Aliás, está ainda mais intrigada com isso tudo... Ah, mas ela vai descobrir, ora se vai! Dandara levanta, decidida. Vai tirar isso a limpo agora mesmo!
Moacir está no quartinho dos fundos, cuidando de seus passarinhos. E Marisa no quintal estendendo roupa no varal. Dandara passa por Marisa, que já sentiu a situação...
__Sei que não gosta de falar do passado... Mas eu tô com algumas coisas entaladas na garganta faz tempo! Eu sei que o Uriah te prejudicou, destruiu a tua vida... E por causa dele, você foi preso, sofreu muito na prisão... - faz uma pausa, pra ver a reação do pai - Mas eu preciso entender o que aconteceu. Vocês nunca falaram desse assunto, nunca sentaram e conversaram comigo sobre o que aconteceu... Eu tenho o direito de saber, pai! - a expressão do rosto de Moacir continua impassível... - Não acho justo vocês fazerem esse mistério todo, escondendo não sei o quê de mim! Acha isso certo, pai? Acha certo, mãe? Não se pode nem pronunciar o nome do Uriah, que você vira bicho! Meu Deus, quanto tempo se passou?... Quantos anos? Trinta, quarenta anos...? Eu tô com quase quarenta e nunca soube de verdade o que aconteceu! Mas tenho esse direito, não é? É o teu passado, mas eu tô incluída nesse pacote, lembra?! Você ficou danado quando eu falei do Lince...! Não quer falar do passado, mas fica o tempo todo assistindo o noticiário, lendo no jornal, até na internet... Fica se torturando com a vida do maldito Uriah, querendo saber tudo sobre ele! Só não quer conversar comigo. Que não falem com a Yara e o Rudi, eu entendo. Eles não têm nada a ver com isso. Mas eu tenho. Então vamos sentar, os três, e conversar. Agora.
Moacir olha para Marisa que à essa altura já parou de estender roupa e está encostada na parede, os olhos arregalados...
__Tá certo. Você tá certa, filha. A gente te deve isso. Marisa, senta aqui. A conversa vai ser longa. - ele puxa um banquinho e Marisa senta.
Dandara senta também. Como ele disse, a conversa vai ser longa...

6 de maio de 2016

Capítulo 6

Ele não é muito alto, os cabelos quase totalmente brancos, um corpo ainda lembrando o atleta que foi um dia... Lince mostra os dentes com facilidade, tem um andar esquisito, como o de um gato... Ah, isso explica o apelido dele!... Cumprimenta os rapazes com um aperto de mão exagerado e as moças com um beijo delicado no rosto... Ele para diante de Dandara e sorri largamente.
__Que bela mulher temos aqui!... - segura a mão dela e beija - Descendente de índios, querida?
__Sim, por parte de pai.
__Como se chama?
__Dandara.
Lince ri, sem largar a mão dela.
__Que incrível coincidência! Eu conheci uma garota que se chamava Dandara! Mas ela era filha de um embaixador africano... Este é um nome africano.
__Eu sei. Negros por parte de mãe. - ela sempre diz essa mentirinha...!
__Uau! Uma bela misturinha, hein! - beija a mão dela de novo - Seja bem-vinda, Dandara! Espero que fique com a gente por muito tempo!
__Obrigada, dr. Alberto.
__Não! Não, querida! Nem doutor nem Alberto! Apenas Lince. - ele sorri e se afasta.
É, ele é esquisito. Simpático, charmoso, galanteador... Porém esquisitão! Mas Dandara gostou dele. Ele é exatamente como se mostra na tv! Hum, isso pode ser bom ou pode ser ruim... O fato é que Lince é o dono dessa e de mais outras vinte e duas lojas de artigos esportivos, portanto ele pode tudo.
E não ficou muito tempo não. Conversou com o gerente por uns quinze minutos, olhou a loja toda, fez mil perguntas e depois de se despedir com um aceno geral, foi embora. Uma agitação tomou conta dos vendedores, inclusive ela, fazendo comentários sobre o chefão... Até o gerente entrou na onda...!
__Ele gostou do que viu, pessoal! Isso é muito bom! Significa que estamos fazendo um bom trabalho!
__Que loucura! O cara é completamente pirado! - diz Lucas, rindo todo animado.
__Engano seu, Lucas. Ele de louco não tem nada! O sorriso fácil e a gentileza... Não se engane: ele é muito esperto e muito cruel também. Portanto, vamos trabalhar! Chega de conversa fiada, pessoal!
Dandara não viu nada de cruel em Lince. Talvez um quê de malícia, uma pitada de ironia... Mas maldade não. E de repente lhe vem à cabeça aquela estória que sua mãe contou... Será mesmo que seu pai conheceu Lince?Será que houve mesmo alguma briga entre eles? Bem, só tem um jeito de saber...

Capítulo 6

Ele não é muito alto, os cabelos quase totalmente brancos, um corpo ainda lembrando o atleta que foi um dia... Lince mostra os dentes com facilidade, tem um andar esquisito, como o de um gato... Ah, isso explica o apelido dele!... Cumprimenta os rapazes com um aperto de mão exagerado e as moças com um beijo delicado no rosto... Ele para diante de Dandara e sorri largamente.
__Que bela mulher temos aqui!... - segura a mão dela e beija - Descendente de índios, querida?
__Sim, por parte de pai.
__Como se chama?
__Dandara.
Lince ri, sem largar a mão dela.
__Que incrível coincidência! Eu conheci uma garota que se chamava Dandara! Mas ela era filha de um embaixador africano... Este é um nome africano.
__Eu sei. Negros por parte de mãe. - ela sempre diz essa mentirinha...!
__Uau! Uma bela misturinha, hein! - beija a mão dela de novo - Seja bem-vinda, Dandara! Espero que fique com a gente por muito tempo!
__Obrigada, dr. Alberto.
__Não! Não, querida! Nem doutor nem Alberto! Apenas Lince. - ele sorri e se afasta.
É, ele é esquisito. Simpático, charmoso, galanteador... Porém esquisitão! Mas Dandara gostou dele. Ele é exatamente como se mostra na tv! Hum, isso pode ser bom ou pode ser ruim... O fato é que Lince é o dono dessa e de mais outras vinte e duas lojas de artigos esportivos, portanto ele pode tudo.
E não ficou muito tempo não. Conversou com o gerente por uns quinze minutos, olhou a loja toda, fez mil perguntas e depois de se despedir com um aceno geral, foi embora. Uma agitação tomou conta dos vendedores, inclusive ela, fazendo comentários sobre o chefão... Até o gerente entrou na onda...!
__Ele gostou do que viu, pessoal! Isso é muito bom! Significa que estamos fazendo um bom trabalho!
__Que loucura! O cara é completamente pirado! - diz Lucas, rindo todo animado.
__Engano seu, Lucas. Ele de louco não tem nada! O sorriso fácil e a gentileza... Não se engane: ele é muito esperto e muito cruel também. Portanto, vamos trabalhar! Chega de conversa fiada, pessoal!
Dandara não viu nada de cruel em Lince. Talvez um quê de malícia, uma pitada de ironia... Mas maldade não. E de repente lhe vem à cabeça aquela estória que sua mãe contou... Será mesmo que seu pai conheceu Lince?Será que houve mesmo alguma briga entre eles? Bem, só tem um jeito de saber...

5 de maio de 2016

Capítulo 5

Uma semana. Dandara completa uma semana de trabalho! Por enquanto, não tem do que se queixar. O gerente é legal, os colegas também. O trabalho não é difícil, apesar do trajeto ser cansativo. Ela está gostando sim. O salário é mais ou menos... Mas dá pra ajudar a equilibrar as contas. Se no trabalho as coisas estão fluindo bem, Dandara não pode dizer o mesmo da família. Está tudo fora do lugar! Seus irmãos são uma fonte inesgotável de problemas, aborrecimentos! Porque Rudi e Yara não podem se comportar como pessoas normais? Desde sempre esses dois aprontam...! E por mais que ela faça, não consegue colocar juízo na cabecinha deles...!
Um pouco de responsabilidade cairia bem, não é! Rudi anda cada vez mais rebelde, agressivo com os pais, sem o menor interesse em trabalhar! Ele já é um homem, poxa! Precisa cair na real e ir à luta! Seria maravilhoso se Rudi arrumasse um trabalho, um canto pra morar e parasse de atormentar os pais...! E tem a Yara. Essa danadinha também não quer nada com nada! Só pensa em farra, namoradinhos, colegadas...! Mas tá difícil orientar essa garota... Dandara não tem muito tempo pra estar com a irmã, mas faz o possível. Queria ter uma longa conversa com Yara, dar uns conselhos, uns puxões de orelha... Enfim, fazer seu papel de irmã mais velha. Só que tem tanta coisa na sua cabeça que quase não sobra espaço pra ajudar seus irmãos como deveria...
Hoje é sexta-feira e ela acordou pensando (pela milionésima vez...! ) nessas coisas. Não pode misturar vida pessoal com trabalho. Só que não é tão fácil assim...
__Pessoal, hoje teremos visitas na loja. - diz o gerente - Lince Borges tá no Rio e vem nos ver!
__Uau! Isso é demais! O chefão em pessoa! -diz entusiasmado Gideão.
__Por isso eu gostaria que colaborassem... Espero que tudo funcione bem, todo mundo se comportando bem... Entenderam?
__Claro, chefe! Pode deixar com a gente!
__Um erro, apenas um erro e estaremos arruinados! O Lince é muito simpático, sorridente, agradável... Mas sabe ser cruel também. Portanto, meninos e meninas, sejam cuidadosos e no mínimo perfeitos!
Lince Borges. Ela ainda não engoliu aquela estória que Marisa contou sobre Moacir e Lince... Seu pai nunca falou de Lince com raiva, nunca mencionou nenhuma briga! Claro que se tivesse acontecido alguma coisa, por mínima que fosse, Moacir teria falado em algum momento...! Na verdade, ele não gosta muito de falar do passado... Algumas lembranças não são boas. A grande maioria delas. Dandara entende o que seu pai sente e respeita seu silêncio. E também Marisa não gosta de tocar em determinados assuntos do passado... Mas ao contrário do Moacir, ela os revive de vez em quando. Solta algumas coisas, que Dandara não entende, sobre seus pais... Bem, talvez Marisa ainda sinta ciúmes de sua mãe. Mas o que Lince tem a ver com isso?
Ela não sabe. E neste momento, não quer saber, pois Lince Borges acaba de entrar na loja!

Capítulo 5

Uma semana. Dandara completa uma semana de trabalho! Por enquanto, não tem do que se queixar. O gerente é legal, os colegas também. O trabalho não é difícil, apesar do trajeto ser cansativo. Ela está gostando sim. O salário é mais ou menos... Mas dá pra ajudar a equilibrar as contas. Se no trabalho as coisas estão fluindo bem, Dandara não pode dizer o mesmo da família. Está tudo fora do lugar! Seus irmãos são uma fonte inesgotável de problemas, aborrecimentos! Porque Rudi e Yara não podem se comportar como pessoas normais? Desde sempre esses dois aprontam...! E por mais que ela faça, não consegue colocar juízo na cabecinha deles...!
Um pouco de responsabilidade cairia bem, não é! Rudi anda cada vez mais rebelde, agressivo com os pais, sem o menor interesse em trabalhar! Ele já é um homem, poxa! Precisa cair na real e ir à luta! Seria maravilhoso se Rudi arrumasse um trabalho, um canto pra morar e parasse de atormentar os pais...! E tem a Yara. Essa danadinha também não quer nada com nada! Só pensa em farra, namoradinhos, colegadas...! Mas tá difícil orientar essa garota... Dandara não tem muito tempo pra estar com a irmã, mas faz o possível. Queria ter uma longa conversa com Yara, dar uns conselhos, uns puxões de orelha... Enfim, fazer seu papel de irmã mais velha. Só que tem tanta coisa na sua cabeça que quase não sobra espaço pra ajudar seus irmãos como deveria...
Hoje é sexta-feira e ela acordou pensando (pela milionésima vez...! ) nessas coisas. Não pode misturar vida pessoal com trabalho. Só que não é tão fácil assim...
__Pessoal, hoje teremos visitas na loja. - diz o gerente - Lince Borges tá no Rio e vem nos ver!
__Uau! Isso é demais! O chefão em pessoa! -diz entusiasmado Gideão.
__Por isso eu gostaria que colaborassem... Espero que tudo funcione bem, todo mundo se comportando bem... Entenderam?
__Claro, chefe! Pode deixar com a gente!
__Um erro, apenas um erro e estaremos arruinados! O Lince é muito simpático, sorridente, agradável... Mas sabe ser cruel também. Portanto, meninos e meninas, sejam cuidadosos e no mínimo perfeitos!
Lince Borges. Ela ainda não engoliu aquela estória que Marisa contou sobre Moacir e Lince... Seu pai nunca falou de Lince com raiva, nunca mencionou nenhuma briga! Claro que se tivesse acontecido alguma coisa, por mínima que fosse, Moacir teria falado em algum momento...! Na verdade, ele não gosta muito de falar do passado... Algumas lembranças não são boas. A grande maioria delas. Dandara entende o que seu pai sente e respeita seu silêncio. E também Marisa não gosta de tocar em determinados assuntos do passado... Mas ao contrário do Moacir, ela os revive de vez em quando. Solta algumas coisas, que Dandara não entende, sobre seus pais... Bem, talvez Marisa ainda sinta ciúmes de sua mãe. Mas o que Lince tem a ver com isso?
Ela não sabe. E neste momento, não quer saber, pois Lince Borges acaba de entrar na loja!

4 de maio de 2016

Capítulo 4

O trabalho até que é legal. Não tem muito mistério vender artigos esportivos. Até porquê, ela gosta de esportes. Gosta muiito! Claro, está no sangue... Seu pai foi um grande pugilista. Quer dizer, poderia ter sido um grande pugilista. Mas o destino não quis. Bom, o que importa é que esse amor pelos esportes passou para os filhos. Principalmente Dandara. O Rudi gosta, tem talento pro boxe, mas a cabecinha dele é uma porcaria, não se liga nem um pouco pra isso...
Dandara é diferente. Cresceu vendo Moacir treinando a garotada de Enseada nos fundos de sua casa, ajudando no que podia...! E depois na adolescência, começou a praticar boxe pra manter a forma, extravasar a tensão. Sim, isso mesmo, boxe! E mais recentemente, o muhai tai. Estranho, né... Uma mulher que luta boxe. Pois é. Dandara passou a vida toda dentro de uma academia de boxe, convivendo com treinadores e pugilistas, não podia ser diferente...! Se quisesse, poderia até seguir carreira no boxe, pois talento ela tem.
Só que não. Ela ama o boxe, as artes marciais, mas não quer enveredar por esse caminho não. É um caminho muito difícil, tortuoso demais... Seu pai que o diga! Muito trabalho, muito sacrifício, muito sofrimento... Sem nunca ter alcançado a glória... Para Moacir, o boxe não teve o retorno esperado. E vendo tudo o que seu pai passou, Dandara declinou de uma carreira como pugilista. Seu coração se voltou para um outro caminho que também está no seu sangue: a dança. Dandara herdou de sua mãe o talento para a dança. Ah, difícil imaginar Marisa como uma graciosa bailarina...! Exatamente, Marisa nunca foi bailarina. Aliás, ela dança muito mal...
Marisa é a única mãe que Dandara conhece. Isso mesmo, Marisa não é mãe dela. Mas foi quem a criou desde que era um bebê... Sua mãe biológica, ela nunca conheceu. Seu pai fez questão de passar a verdade pra ela, desde que era pequena, que Marisa não era sua mãe de verdade... Antes de morrer, sua mãe biológica pediu que Marisa cuidasse dela. Foi um pedido de uma mulher apaixonada pra outra. E isso teve um peso enorme na relação entre Dandara e Marisa...! De vez em quando elas se " estranham", mas mesmo Marisa não sendo do tipo muito afetuosa, existe amor entre elas.
Bom, todas essas coisas passam pela cabeça dela enquanto começa seu primeiro dia de trabalho. Pensa em quando conseguirá terminar a faculdade de fisioterapia, que já se arrasta há anos... Em quando terá dinheiro suficiente pra montar sua academia de dança.... Em quando seu irmão Rudi irá tomar juízo e trabalhar... Em quando conseguirá ter um cara decente, que ame loucamente pra formar uma família...
__Tudo bem aí, Dandara? - o gerente pergunta, com um sorriso simpático.
__Sim, tudo bem.
__Se tiver alguma dificuldade, algum problema, é só falar comigo.
__Tá legal.
As vendas não são muitas, mas o movimento é grande na loja. Dandara está animada, confiante mesmo. Quem sabe dessa vez não vai dar certo! E ela precisa acreditar que vai. A coisa está feia pra família Souza Lima! Às vezes, ela se sente desamparada, sem ter alguém pra dividir o fardo... Não, sua família não é um fardo! Os problemas sim, pesam muito...! E apenas Dandara pra dar conta de tudo...
__Sabia que essa loja é do Lince Borges ?- diz uma mulher assim que entra na loja.
__Caramba! Esse cara é demais! Ultra poderoso, sarado e ainda por cima charmosinho! - a outra, de cabelos ruivos e corpo musculoso, dá uma risadinha de maldade...
__Ele tá podendo, né, amiga! Aposto como esse shopping também é dele!
__Será que ele aparece de vez em quando na loja?!
As duas começam a rir e vão para o fundo da loja onde ficam os halteres. Dandara só observa as duas, falando alto e rindo ao mesmo tempo em que mexem nos halteres... Corpo cheio e cabeça vazia! Ela não sabe se o que as mulheres disseram é verdade, mas fica curiosa. Será que ela trabalha pro famoso Lince Borges? É uma possibilidade... Esse cara sim, é um vencedor! Foi um grande pugilista, campeão várias vezes...! Além de vencer no boxe, ele venceu também no mundo dos negócios: tornou-se um empresário de sucesso.
Lince é da época de Moacir, mas eles não chegaram a lutar. Até hoje ele conserva a energia, o vigor e o corpo atlético...! E como disse a mulher, ainda é muito charmoso... Rico, poderoso, inteligente, másculo, simpático... O "sonho de consumo" de toda mulher! Volta e meia ele aparece na televisão, seja dando entrevista ou fazendo algum comercial. Lince está sempre cercado de amigos, assessores, pupilos e mulheres, claro. Aliás, o que não falta é mulher formando fila pra entrar na vida dele... Dandara até que entraria nessa fila não fosse pela enorme diferença de idade...
Mas deixa isso pra lá. Melhor focar no trabalho. Diga-se de passagem, ela está gostando. Talvez ela se dê melhor do que as outras porque pratica um esporte. Agora, vender, vender mesmo... Está meio complicado! Nem todo o seu conhecimento, nem sua simpatia estão fazendo as pessoas comprarem! É, tá difícil pra todo mundo...! No fim do dia, ela tem os pés doloridos, a cabeça latejando e uma vontade louca de se jogar numa cama... Mas ela está satisfeita. Precisava trabalhar, ganhar dinheiro. Qualquer dinheiro. Mesmo sendo pouco, já é uma ajuda.
Todos esses anos, Dandara tem dado o sangue pra manter sua família. Desde que Moacir ficou doente, as coisas complicaram muito no quesito grana. Felizmente a casa onde moram não correm o risco de perder! Mas teve uma época em que o dinheiro ficou muito curto e Moacir se viu obrigado a vender os equipamentos de sua modesta academia... Inclusive suas primeiras luvas e o Cinturão do Campeonato estadual... Foi horrível ver o pai se desfazer de coisas tão especiais! Mas eles superaram aquela fase. Só que outras fases vieram e continuam até hoje... O dinheiro de Dandara mais o que sua mãe fatura na pensão, é o que mantém a família. Seria mais fácil se Rudi trabalhasse também e Yara ajudasse a mãe na pensão...
Então, essa é a vida de Dandara. Neste exato momento, ela acaba de tomar um banho e se prepara para dormir quando Marisa entra no quarto.
__Então... Tá trabalhando no Rio...
__Tô.
__Teu pai não deve ter gostado nadinha...!
__É, não gostou mesmo. Mas eu não ligo. - ela ajeita o lençol antes de deitar na cama - O trabalho é legal. Dá uma graninha boa.
__Fazendo o quê ?
__Vendedora numa loja de produtos esportivos.
__Ah, sei... -Marisa senta na beira da cama - É a tua Cara!
__Pois é. Sabe o que eu ouvi dizer lá na loja? Que o Lince Borges é o dono.
__Ah, o Lince...! Não duvido nada. Teu pai também não vai gostar de saber disso...
__Porque não ?
__Ele e o Lince se estranharam uma vez. Não foi briga, mas eles quase discutiram.
__Estranho... Não consigo imaginar o Lince alterado, discutindo com alguém!...
__É, ele não foi sempre essa simpatia toda...! De vez em quando, dava uns chiliques...
__E porque discutiram ?
Marisa levanta anda pelo e encolhe os ombros, com seu jeito mal humorado de ser... Mas ela parece nervosa, desconfortável, com a pergunta... O que é estranho em se tratando de Marisa...
__Coisas de boxe, eu acho... Não lembro mais. Foi a tanto tempo!
Dandara se remexe na cama enquanto a mãe sai do quarto resmungando qualquer coisa. Muito esquisita a reação de Marisa...! Cheia de dedos pra falar do Lince! E o mais esquisito: fazendo mistério sobre uma briga entre Moacir e Lince... Dandara não acreditou em uma só palavra! Imagine se Moacir iria discutir com Lince por causa de boxe! Aí tem coisa...

Capítulo 4

O trabalho até que é legal. Não tem muito mistério vender artigos esportivos. Até porquê, ela gosta de esportes. Gosta muiito! Claro, está no sangue... Seu pai foi um grande pugilista. Quer dizer, poderia ter sido um grande pugilista. Mas o destino não quis. Bom, o que importa é que esse amor pelos esportes passou para os filhos. Principalmente Dandara. O Rudi gosta, tem talento pro boxe, mas a cabecinha dele é uma porcaria, não se liga nem um pouco pra isso...
Dandara é diferente. Cresceu vendo Moacir treinando a garotada de Enseada nos fundos de sua casa, ajudando no que podia...! E depois na adolescência, começou a praticar boxe pra manter a forma, extravasar a tensão. Sim, isso mesmo, boxe! E mais recentemente, o muhai tai. Estranho, né... Uma mulher que luta boxe. Pois é. Dandara passou a vida toda dentro de uma academia de boxe, convivendo com treinadores e pugilistas, não podia ser diferente...! Se quisesse, poderia até seguir carreira no boxe, pois talento ela tem.
Só que não. Ela ama o boxe, as artes marciais, mas não quer enveredar por esse caminho não. É um caminho muito difícil, tortuoso demais... Seu pai que o diga! Muito trabalho, muito sacrifício, muito sofrimento... Sem nunca ter alcançado a glória... Para Moacir, o boxe não teve o retorno esperado. E vendo tudo o que seu pai passou, Dandara declinou de uma carreira como pugilista. Seu coração se voltou para um outro caminho que também está no seu sangue: a dança. Dandara herdou de sua mãe o talento para a dança. Ah, difícil imaginar Marisa como uma graciosa bailarina...! Exatamente, Marisa nunca foi bailarina. Aliás, ela dança muito mal...
Marisa é a única mãe que Dandara conhece. Isso mesmo, Marisa não é mãe dela. Mas foi quem a criou desde que era um bebê... Sua mãe biológica, ela nunca conheceu. Seu pai fez questão de passar a verdade pra ela, desde que era pequena, que Marisa não era sua mãe de verdade... Antes de morrer, sua mãe biológica pediu que Marisa cuidasse dela. Foi um pedido de uma mulher apaixonada pra outra. E isso teve um peso enorme na relação entre Dandara e Marisa...! De vez em quando elas se " estranham", mas mesmo Marisa não sendo do tipo muito afetuosa, existe amor entre elas.
Bom, todas essas coisas passam pela cabeça dela enquanto começa seu primeiro dia de trabalho. Pensa em quando conseguirá terminar a faculdade de fisioterapia, que já se arrasta há anos... Em quando terá dinheiro suficiente pra montar sua academia de dança.... Em quando seu irmão Rudi irá tomar juízo e trabalhar... Em quando conseguirá ter um cara decente, que ame loucamente pra formar uma família...
__Tudo bem aí, Dandara? - o gerente pergunta, com um sorriso simpático.
__Sim, tudo bem.
__Se tiver alguma dificuldade, algum problema, é só falar comigo.
__Tá legal.
As vendas não são muitas, mas o movimento é grande na loja. Dandara está animada, confiante mesmo. Quem sabe dessa vez não vai dar certo! E ela precisa acreditar que vai. A coisa está feia pra família Souza Lima! Às vezes, ela se sente desamparada, sem ter alguém pra dividir o fardo... Não, sua família não é um fardo! Os problemas sim, pesam muito...! E apenas Dandara pra dar conta de tudo...
__Sabia que essa loja é do Lince Borges ?- diz uma mulher assim que entra na loja.
__Caramba! Esse cara é demais! Ultra poderoso, sarado e ainda por cima charmosinho! - a outra, de cabelos ruivos e corpo musculoso, dá uma risadinha de maldade...
__Ele tá podendo, né, amiga! Aposto como esse shopping também é dele!
__Será que ele aparece de vez em quando na loja?!
As duas começam a rir e vão para o fundo da loja onde ficam os halteres. Dandara só observa as duas, falando alto e rindo ao mesmo tempo em que mexem nos halteres... Corpo cheio e cabeça vazia! Ela não sabe se o que as mulheres disseram é verdade, mas fica curiosa. Será que ela trabalha pro famoso Lince Borges? É uma possibilidade... Esse cara sim, é um vencedor! Foi um grande pugilista, campeão várias vezes...! Além de vencer no boxe, ele venceu também no mundo dos negócios: tornou-se um empresário de sucesso.
Lince é da época de Moacir, mas eles não chegaram a lutar. Até hoje ele conserva a energia, o vigor e o corpo atlético...! E como disse a mulher, ainda é muito charmoso... Rico, poderoso, inteligente, másculo, simpático... O "sonho de consumo" de toda mulher! Volta e meia ele aparece na televisão, seja dando entrevista ou fazendo algum comercial. Lince está sempre cercado de amigos, assessores, pupilos e mulheres, claro. Aliás, o que não falta é mulher formando fila pra entrar na vida dele... Dandara até que entraria nessa fila não fosse pela enorme diferença de idade...
Mas deixa isso pra lá. Melhor focar no trabalho. Diga-se de passagem, ela está gostando. Talvez ela se dê melhor do que as outras porque pratica um esporte. Agora, vender, vender mesmo... Está meio complicado! Nem todo o seu conhecimento, nem sua simpatia estão fazendo as pessoas comprarem! É, tá difícil pra todo mundo...! No fim do dia, ela tem os pés doloridos, a cabeça latejando e uma vontade louca de se jogar numa cama... Mas ela está satisfeita. Precisava trabalhar, ganhar dinheiro. Qualquer dinheiro. Mesmo sendo pouco, já é uma ajuda.
Todos esses anos, Dandara tem dado o sangue pra manter sua família. Desde que Moacir ficou doente, as coisas complicaram muito no quesito grana. Felizmente a casa onde moram não correm o risco de perder! Mas teve uma época em que o dinheiro ficou muito curto e Moacir se viu obrigado a vender os equipamentos de sua modesta academia... Inclusive suas primeiras luvas e o Cinturão do Campeonato estadual... Foi horrível ver o pai se desfazer de coisas tão especiais! Mas eles superaram aquela fase. Só que outras fases vieram e continuam até hoje... O dinheiro de Dandara mais o que sua mãe fatura na pensão, é o que mantém a família. Seria mais fácil se Rudi trabalhasse também e Yara ajudasse a mãe na pensão...
Então, essa é a vida de Dandara. Neste exato momento, ela acaba de tomar um banho e se prepara para dormir quando Marisa entra no quarto.
__Então... Tá trabalhando no Rio...
__Tô.
__Teu pai não deve ter gostado nadinha...!
__É, não gostou mesmo. Mas eu não ligo. - ela ajeita o lençol antes de deitar na cama - O trabalho é legal. Dá uma graninha boa.
__Fazendo o quê ?
__Vendedora numa loja de produtos esportivos.
__Ah, sei... -Marisa senta na beira da cama - É a tua Cara!
__Pois é. Sabe o que eu ouvi dizer lá na loja? Que o Lince Borges é o dono.
__Ah, o Lince...! Não duvido nada. Teu pai também não vai gostar de saber disso...
__Porque não ?
__Ele e o Lince se estranharam uma vez. Não foi briga, mas eles quase discutiram.
__Estranho... Não consigo imaginar o Lince alterado, discutindo com alguém!...
__É, ele não foi sempre essa simpatia toda...! De vez em quando, dava uns chiliques...
__E porque discutiram ?
Marisa levanta anda pelo e encolhe os ombros, com seu jeito mal humorado de ser... Mas ela parece nervosa, desconfortável, com a pergunta... O que é estranho em se tratando de Marisa...
__Coisas de boxe, eu acho... Não lembro mais. Foi a tanto tempo!
Dandara se remexe na cama enquanto a mãe sai do quarto resmungando qualquer coisa. Muito esquisita a reação de Marisa...! Cheia de dedos pra falar do Lince! E o mais esquisito: fazendo mistério sobre uma briga entre Moacir e Lince... Dandara não acreditou em uma só palavra! Imagine se Moacir iria discutir com Lince por causa de boxe! Aí tem coisa...

3 de maio de 2016

Capítulo 3

Implicância de Moacir com o Rio! Ele sempre teve isso, desde que Dandara era menina!... Uma bobagem, coisas de pai. Moacir acha que o Rio é super perigoso, tumultuado demais, longe demais...! Um absurdo, totalmente sem sentido esses argumentos dele! Não quer que Dandara vá ao Rio nem pra passear! Mas Yara e Rudi podem! Seus irmãos já foram várias vezes, sem reclamação do pai... Ela nunca deu importância pra isso, mas às vezes acha estranho a reação do pai. E fica chateada porque não é mais uma menininha pra ele ter esse zelo todo...
Mas é só seu pai que vê perigo na capital. Sua mãe não se importa, não vê problema algum. Por outro lado, também não a incentiva a sair de Enseada e tentar melhorar de vida em outro lugar. Marisa nunca foi mesmo de muita conversa com os filhos, especialmente com Dandara. O jeito meio áspero da mãe, o tom quase sempre amargo de falar, não a incomoda. Marisa é assim mesmo, mas é uma boa pessoa, esposa dedicada, mãe atenciosa... Às vezes, elas batem de frente, brigam mesmo! Coisas de mãe e filha. Claro que Dandara gostaria que sua relação com a mãe fosse diferente, igual a que tem com o pai. Mas tudo bem, ninguém é perfeito.
Enquanto se revira na cama tentando encontrar uma posição confortável pra dormir, vai pensando em seus problemas e numa maneira de resolvê-los. Está difícil, mesmo! O Rudi é quem mais preocupa... Não quer nada com trabalho, estudo...! Anda em péssimas companias, sempre agressivo, revoltado, arredio! Só dá preocupação para os pais! E quem vai descascar esse pepino é Dandara. Ah, ainda tem a Yara, meu Deus...! Mas essa ainda tem jeito.
__Quer parar de se mexer, Dandara?! Assim não consigo dormir, caramba! - a voz de Yara quebra o silêncio dando aquele susto em Dandara...
__Dá um tempo, pirralha! Aposto que chegou agora também!
__Claro que não! Tô querendo dormir e você fazendo essa barulheira toda aí!
__Ah, sim! Amanhã tem escola, né? Precisa acordar cedo!
__É, isso mesmo... Agora chega de conversa e vamos dormir?
__Tudo bem. Pode deixar que eu te acordo amanhã pra não perder a hora, viu? Boa noite, irmãzinha!
__Não enche!

Capítulo 3

Implicância de Moacir com o Rio! Ele sempre teve isso, desde que Dandara era menina!... Uma bobagem, coisas de pai. Moacir acha que o Rio é super perigoso, tumultuado demais, longe demais...! Um absurdo, totalmente sem sentido esses argumentos dele! Não quer que Dandara vá ao Rio nem pra passear! Mas Yara e Rudi podem! Seus irmãos já foram várias vezes, sem reclamação do pai... Ela nunca deu importância pra isso, mas às vezes acha estranho a reação do pai. E fica chateada porque não é mais uma menininha pra ele ter esse zelo todo...
Mas é só seu pai que vê perigo na capital. Sua mãe não se importa, não vê problema algum. Por outro lado, também não a incentiva a sair de Enseada e tentar melhorar de vida em outro lugar. Marisa nunca foi mesmo de muita conversa com os filhos, especialmente com Dandara. O jeito meio áspero da mãe, o tom quase sempre amargo de falar, não a incomoda. Marisa é assim mesmo, mas é uma boa pessoa, esposa dedicada, mãe atenciosa... Às vezes, elas batem de frente, brigam mesmo! Coisas de mãe e filha. Claro que Dandara gostaria que sua relação com a mãe fosse diferente, igual a que tem com o pai. Mas tudo bem, ninguém é perfeito.
Enquanto se revira na cama tentando encontrar uma posição confortável pra dormir, vai pensando em seus problemas e numa maneira de resolvê-los. Está difícil, mesmo! O Rudi é quem mais preocupa... Não quer nada com trabalho, estudo...! Anda em péssimas companias, sempre agressivo, revoltado, arredio! Só dá preocupação para os pais! E quem vai descascar esse pepino é Dandara. Ah, ainda tem a Yara, meu Deus...! Mas essa ainda tem jeito.
__Quer parar de se mexer, Dandara?! Assim não consigo dormir, caramba! - a voz de Yara quebra o silêncio dando aquele susto em Dandara...
__Dá um tempo, pirralha! Aposto que chegou agora também!
__Claro que não! Tô querendo dormir e você fazendo essa barulheira toda aí!
__Ah, sim! Amanhã tem escola, né? Precisa acordar cedo!
__É, isso mesmo... Agora chega de conversa e vamos dormir?
__Tudo bem. Pode deixar que eu te acordo amanhã pra não perder a hora, viu? Boa noite, irmãzinha!
__Não enche!

2 de maio de 2016

Capítulo 2



Sim, ela mora longe. Fora da capital. Na verdade, muiiiiito longe...! Na Costa Verde, num lugar chamado Enseada. Um pequeno paraíso escondidinho entre Angra dos Reis e Paraty... Apesar das facilidades do Rio, como trabalho, por exemplo, Dandara não sente a menor vontade de morar na capital. Em Enseada, todo mundo se conhece, todo mundo se ajuda. Era, muito antigamente uma vila de pescadores, e segundo dizem, o Imperador Dom Pedro passou três dias para descansar de uma longa viagem à Santos... Dandara, claro, não acredita nisso, acha pura lenda dos mais antigos... Mas o mais provável é que seja invenção dos políticos da região para atrair os turistas. Bobagem! Enseada só tem um hospital, um cinema, uma praça, um clube, um hotel, um supermercado, uma delegacia! Nada de especial que atraia turistas. Ah, sim, tem as praias. Lindas, parece coisa de cinema! De vez em quando aparecem turistas vindos de São Paulo, do Rio, Minas Gerais... Por causa das praias, claro. Mas ninguém se liga muito no lugar, não é um lugar conhecido como Angra ou Búzios. É só um lugarejo à beira-mar.
E Dandara caminha pela rua enorme, sentindo os pés latejando e queimando horrores, porém satisfeita da vida. Claro que não é o emprego dos seus sonhos, mas é um emprego. Tem um salário médio, dá pra segurar as pontas por um bom tempo. Além disso o ambiente é bem legal, as pessoas são simpáticas... Vai dar certo, se Deus quiser! Bom, descascado o primeiro pepino, agora é pensar em como descascar os outros. Tem a escola da Yara pra resolver, a criatura só quer saber de farra, estudar necas! Tem a pensão da mãe pra abastecer, coisa que tá muito difícil com os preços dos alimentos lá em cima... Tem a saúde do pai pra cuidar, ele anda muito deprimido porque não pode mais trabalhar como antes... E tem o problema com o Rudi. Esse pepino, vai ser o mais difícil de descascar...
Abre a porta da sala, tentando não fazer barulho pra não acordar os pais. Mas de repente a luz acende e leva aquele susto.
__Caramba, pai! Quer me matar de susto!?
__Quase uma hora da manhã, Dandara! O quê que aconteceu, filha?
__Peguei um trânsito horroroso! Engarrafamento na Avenida Brasil de enlouquecer, pai! Mas valeu essa loucura toda. – ela sorri – Consegui o emprego!
__Conseguiu trabalho? Mas no Rio?!
__Sim, pai! Eu consegui trabalho! Não é maravilhoso? Depois desse tempo todo lutando feito uma égua, finalmente arranjei trabalho! – senta no sofá e começa a tirar as sandálias – Como vendedora numa loja de artigos esportivos. Não é legal?
__Mas no Rio, Dandara?... Você disse que ia procurar em Angra, Mangaratiba...
__Pai, trabalho é trabalho! Não importa onde, o que importa é que eu tô empregada! O salário dá pro gasto e eu gostei do ambiente, das pessoas...
__Muito longe, filha... Muito longe! – ele sacode a cabeça de um lado pro outro – Tanto lugar mais perto daqui pra você trabalhar...
__Quer parar com isso, seu Moacir?! Tá falando como se eu tivesse quinze anos! Eu não sou uma garotinha inocente, pai!... Tenho trinta e nove anos, sei me cuidar muito bem! – levanta do sofá, dá um beijo no pai e vai pro seu quarto.

Capítulo 2



Sim, ela mora longe. Fora da capital. Na verdade, muiiiiito longe...! Na Costa Verde, num lugar chamado Enseada. Um pequeno paraíso escondidinho entre Angra dos Reis e Paraty... Apesar das facilidades do Rio, como trabalho, por exemplo, Dandara não sente a menor vontade de morar na capital. Em Enseada, todo mundo se conhece, todo mundo se ajuda. Era, muito antigamente uma vila de pescadores, e segundo dizem, o Imperador Dom Pedro passou três dias para descansar de uma longa viagem à Santos... Dandara, claro, não acredita nisso, acha pura lenda dos mais antigos... Mas o mais provável é que seja invenção dos políticos da região para atrair os turistas. Bobagem! Enseada só tem um hospital, um cinema, uma praça, um clube, um hotel, um supermercado, uma delegacia! Nada de especial que atraia turistas. Ah, sim, tem as praias. Lindas, parece coisa de cinema! De vez em quando aparecem turistas vindos de São Paulo, do Rio, Minas Gerais... Por causa das praias, claro. Mas ninguém se liga muito no lugar, não é um lugar conhecido como Angra ou Búzios. É só um lugarejo à beira-mar.
E Dandara caminha pela rua enorme, sentindo os pés latejando e queimando horrores, porém satisfeita da vida. Claro que não é o emprego dos seus sonhos, mas é um emprego. Tem um salário médio, dá pra segurar as pontas por um bom tempo. Além disso o ambiente é bem legal, as pessoas são simpáticas... Vai dar certo, se Deus quiser! Bom, descascado o primeiro pepino, agora é pensar em como descascar os outros. Tem a escola da Yara pra resolver, a criatura só quer saber de farra, estudar necas! Tem a pensão da mãe pra abastecer, coisa que tá muito difícil com os preços dos alimentos lá em cima... Tem a saúde do pai pra cuidar, ele anda muito deprimido porque não pode mais trabalhar como antes... E tem o problema com o Rudi. Esse pepino, vai ser o mais difícil de descascar...
Abre a porta da sala, tentando não fazer barulho pra não acordar os pais. Mas de repente a luz acende e leva aquele susto.
__Caramba, pai! Quer me matar de susto!?
__Quase uma hora da manhã, Dandara! O quê que aconteceu, filha?
__Peguei um trânsito horroroso! Engarrafamento na Avenida Brasil de enlouquecer, pai! Mas valeu essa loucura toda. – ela sorri – Consegui o emprego!
__Conseguiu trabalho? Mas no Rio?!
__Sim, pai! Eu consegui trabalho! Não é maravilhoso? Depois desse tempo todo lutando feito uma égua, finalmente arranjei trabalho! – senta no sofá e começa a tirar as sandálias – Como vendedora numa loja de artigos esportivos. Não é legal?
__Mas no Rio, Dandara?... Você disse que ia procurar em Angra, Mangaratiba...
__Pai, trabalho é trabalho! Não importa onde, o que importa é que eu tô empregada! O salário dá pro gasto e eu gostei do ambiente, das pessoas...
__Muito longe, filha... Muito longe! – ele sacode a cabeça de um lado pro outro – Tanto lugar mais perto daqui pra você trabalhar...
__Quer parar com isso, seu Moacir?! Tá falando como se eu tivesse quinze anos! Eu não sou uma garotinha inocente, pai!... Tenho trinta e nove anos, sei me cuidar muito bem! – levanta do sofá, dá um beijo no pai e vai pro seu quarto.
© Golpe Baixo
Maira Gall